ALBUM REVIEW | Ailee – butterFLY (2019)

A cena pop vive de ondas. O K-Pop não se safa disso. Se até, vá lá, dois anos atrás, todos reclamávamos que o cenário feminino era lotado de girlgroups inflados e daquela estética white aegyo bocó muito pouco aproveitável, em 2019, podemos celebrar que o público, aparentemente, envelheceu e está optando por jogar mais luz em releases girlcrush bem mais satisfatórios e propensos a melhores aproveitamentos. O que também vem se estendendo ao nicho de cantoras pop em tal fatia, com várias delas retornando ou se lançando nos últimos tempos. E enquanto gatas como Chung Ha, Lee Hi, Somi e Hwasa têm conquistado bastante sucesso living that pop diva dream

Uma veterana como a Ailee não teve a mesma sorte. O que é uma pena, pois o butterFLY é fácil o seu melhor registro em todos esses anos de vida idol

Falei isso no post de “Room Shaker”, mas é válido repetir. Gosto muito da Ailee como uma “figura”. Vejo nela algo que gostaria que fosse mais presente dentro do mundinho pop sul-coreano: o arquétipo de cantora que, vejam só, sabe cantar de verdade, com o pró de utilizar essa habilidade vocal em prol de faixas radiofônicas, divertidas e com o apelo às massas em vez de limitá-la ao mundinho de OSTs de doramas que vocalistas de seu porte costumam se fechar.

E não que o K-Pop necessite de vocais fortes para acontecer. Na verdade, com as tecnologias atuais de edição e o orçamento certo, qualquer adolescente espevitado apoiado unicamente em seu carisma pode dar certo musicalmente. Honestamente, a qualidade das músicas e o “porquê” de curtirem-as independe disso. Mas quando o poder dessas boas composições e trabalhos minuciosos de produção são impulsionados por alguém com uma boa extensão vocal, podemos ter em mãos números ótimos aos ouvidos que pouca gente pode executar. Ela fez isso em três momentos: I Will Show You, em 2012, e You and I mais No No No, em 2013.

O grande problema é que isso não se repetiu.

Sinto um grande vácuo entre o meu apresso pela Ailee como act, no que ela pode me propiciar através de seu talento, e o que, de fato, ela me entregou em todo esse tempo de carreira. Digo isso, pois tentei me lembrar de algum outro single dela pós-2013 sem olhar em sua página no Generasia e, genuinamente, não consegui me recordar do nome de nenhum. E a coisa piora ainda quando cogito as tracks de seus discos. Nada vem à cabeça. Somem isso ao fato de sua antiga gravadora, YMC, nos últimos 2, 3 anos, ter se ocupado mais em promover os grupos gerados em sua parceria com a MNET nas duas primeiras temporadas do Produce 101 (I.O.I e Wanna One, sucesso), deixando-a por mais de 3 anos sem um comeback oficial. A impressão final que tenho é de que a Ailee se tornou uma daquelas cantoras “de antigamente”, que me foram importantes naquele início de K-Pop, mas acabaram por não se sustentar com relevância era a era (tipo a Son Dam Bi, a G.NA e a Soyou rs).

Logo, é muito legal que, para esse retorno, agora “se despedindo” da YMC (mas com um álbum saindo pela gravadora, mesmo com ela tendo pulado fora e fundando seu próprio selo, não entendi direito), ela tenha optado por reunir na tracklist uma porção de canções que conversam direito com diferentes públicos da atualidade. Plano parecido com o da BoA ano passado no EP “One Shot, Two Shot” – que, ironicamente, também fracassou nos charts. Todas são músicas bacanas, ainda que em diferentes medidas. O interessante mesmo é a versatilidade dele como uma obra completa, com canções que não necessariamente precisariam de um vocal como o dela, mas são intensificadas com seu canto e, de certa forma, sua figura.

É justamente o fato de ser interpretada pela Ailee que Room Shaker consegue sair do lugar comum dessas “músicas BLACKPINK” urban farofonas, recheadas de sintetizadores mais pesados e daquela atitude “malvada” que aquela galera que não curte K-Pop usa para definir o nicho. É idiota, é tryhard e eu provavelmente ignoraria sua existência se fosse lançado por algum NCT da vida, mas fica tão divertida com ela toda plastificada gritando “let’s get ready to rumbleeeeee” no final. O tipo de treco ruim/bom que diverte do início ao fim.

Mas o melhor mesmo são os momentos bom/bom de verdade. Vários. Midnight abre a tracklist com um R&B eletrônico dançante que aproveita direitinho seu vocal extenso por meio de melodias intensas, vocalizações vibrantes e um ar “gsopel” interessante de se deixar levar. Em Want It, ela se joga numa mistura de funk com discodance contagiante que o Mark Ronson adoraria ter em seu mais recente álbum. Já em Headlock, ela reproduz com certa finesse aquele sax pop que Fifth Harmony, Jessie J e outros acts faziam muito bem anos atrás, com metais, palmas, corais e todos os artifícios for fun perfeitos para nesse tipo de proposta.

Heartcrusher é como se estivéssemos no início da década, onde David Guetta recrutava toda variedade de solistas para parcerias idealmente voltadas para as pistas, mas que acabavam sendo boas para ambos os envolvidos. Versos ótimos, uma porção de ganchos envolventes, refrão reproduzível que fica na cabeça. Uma pena não ter sido trabalhada idealmente, com MV, performances nesses programas de TV e tudo mais.

Essa boa mão pras escolhas eletrônicas não se fez presente apenas ao recobrar algo que era it há muito tempo, como também foi proveitosa ao montar uma balada dance com os modismos atuais. Ain’t That Pretty é a típica filha de sua época, com influências future house que todo e qualquer metido a hipster usa em seus lançamentos atuais, naquilo do refrão ser composto por sintetizadores distorcidos que explodem atrás enquanto ela repete o título da faixa. Falando assim, parece derivativa demais. No entanto, isso funciona tão bem que, honestamente, nem há o que reclamar.

Já quanto a outros momentos do álbum, sim, há o que reclamar. São músicas que não chegam a ser ruins, mas fraquejam por, na falta de uma definição melhor, não se mostrarem tão bem executadas quanto o resto.

Fire, por exemplo, poderia ser um pouquinho menos óbvia em suas escolhas melódicas nessa onda tropical house dancehall, pois acaba se misturando em seus “la la la la la la la” com tantos outros exemplares semelhantes recentes. O mesmo para algumas das outras baladas presentes nele, como LoveNothing At All, ambas muito parecidas em seus instrumentais com outros releases nesse mesmo estilo (“música de cafeteria 101” e retrô Motown, se jogar o chinelo num chart coreano qualquer, umas quinze iguais voam assustadas). You are Precious Because of Who You Are, contudo, consegue se safar disso ao explorar uma certa vulnerabilidade no vocal da Ailee, aqui, menos tratado e mais passional, como se a estivesse interpretando ao vivo num espetáculo teatral da Disney.

“butterFLY” surpreende por ser um bom álbum atual vindo de alguém que, há muito, ao menos para mim, apenas prometia. Não há uma “assinatura” da Ailee como artista presente nele. Sinto que qualquer outra gatinha poderia ter feito coisa parecida, dadas as devidas proporções. Mas não é como se, a essa altura do campeonato, isso fosse realmente necessário. Na verdade, ser “genérica”, estranhamente, se mostrou a melhor decisão musical da Ailee em muito tempo. Sei lá se isso é bom ou ruim. Só sei que gostei do que recebi. No fim do dia, é isso que importa.

Nota 7,0

2 comentários em “ALBUM REVIEW | Ailee – butterFLY (2019)

  1. Caramba… qual a lógica pra esse flopaço da Ailee? Eu imaginava que só o nome dela (que sempre me pareceu ser uma cantora muito popular na Coreia do Sul) já seria suficiente pra ela vender bastante. Esses números fazem o GWSN parecer um girlgroup de sucesso…

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    1. Queria entender tb, não lembro onde, mas vi em uma rede social que ela é considerada “gorda” e por isso sofre esse preconceito todo, o que faz sentido já que eles tb flopam minha jimin do jyp.

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