Time Machine: Jolin Tsai, “Ugly Beauty” e a habilidade de colocar todos para pensar enquanto rebolam a raba (2018)

Segunda metade de dezembro de 2018. Eu havia anunciado no Esquadrão Lunático que o blog entraria em sua reta final, por todos aqueles motivos que eu já cansei de contar aqui. O que faltava para encerrar sua trajetória com chave de ouro? Compilar quais as melhores músicas de tal ano e montar os respectivos rankings. Yubin emulando Mariya Takeuchi, SHINee homenageando o Jonghyun se jogando no house, Mondo Grosso e BoA destruindo no J-Pop. Tudo fechado, tudo certo, preparado.

21 de dezembro: a porra da Jolin Tsai desiste da vida de boleira e resolve derreter o cérebro de todo mundo com isso aqui…

Cada cena musical tem seus próprios costumem em diferentes países. No Japão, é comum que as eras dos artistas sigam o caminho de uma porção de singles trabalhados que, ao fim, se juntam num álbum que a encerrará. Na Coreia do Sul, que vocês estão mais acostumados, é aquilo dos idols soltarem EPs com um lead single servindo de “title”com o resto da tracklist não ganhando muito esforço de promoção dali em diante. No MandoPop, rola isso de alguns artistas soltarem full albums bem no finalzinho de dezembro, quase na virada, e trabalharem as faixas dele como singles no ano seguinte. Não tenho ideia do motivo, também não sei se me importo de verdade.

Foi seguindo essa ideia que a Jolin Tsai, cantora taiwanesa queridinha em vários pontos da Ásia e na blogosfera fundo de quintal aqui do Brasil, lançou seu 14º álbum de estúdio, Ugly Beauty, tendo como single promocional a faixa de mesmo nome acima.

Em “Ugly Beauty”, Jolin repete uma fórmula que já havia dado bem certo com ela quatro anos antes, em “Play”: misturar “mensagem” na letra da música com um tipo de instrumental voltado para as pistas. É aquilo de “woke pop”, só que feito com um refinamento que não deixa o produto final demasiadamente pedante ou não levável a sério (exemplos falhos aqui e aqui, exemplos competentes aqui e, por incrível que pareça, aqui). A mensagem, no caso, sendo um questionamento às exigências de padrões de beleza, que obrigam pessoas, de quaisquer tamanhos, formatos, etnias etc., a buscarem se adequar no que é tido como bonito, ainda que isso seja honestamente inalcançável.

O recado é pungente, válido e bem bonito, e o grande gimick da produção toda é optar por inseri-la, como já disse, num arranjo dançante atípico para essa proposta. Eu vivo por esse instrumental eletrônico esquisito, cheio de seções estranhas e mudanças de chave inesperadas. O refrão é bizarro, uma montanha-russa de momentos e que parecem não terminar. Na verdade, a impressão que dá é que esse primeiro refrão não termina de verdade, com os versos posteriores da música sendo variantes dele. É desconfortável, angustiante, mas com um replay factor absurdamente alto. Sem sombra de dúvidas, um dos ápices da discografia da Jolin… E de 2018 também.

Logo depois do natal, no dia 26, dia de lançamento do álbum, enfim saiu o videoclipe. Um desbunde visual, que parece ter custado os olhos da cara, cheio de figurinos, cenários e efeitos especiais que ampliam a narrativa construída na letra de “Ugly Beauty”. Aqui, Jolin é julgada por ela mesma por não se esforçar o suficiente para manter-se nos padrões de beleza exigíveis de uma cantora pop. É espetacular. No final, a Jolin réu e a Jolin Cármen Lúcia se abraçam, explodindo numa nuvem purpurinada de aceitação.

Não sou fã do álbum “Ugly Beauty” (só ouço a faixa título mesmo e “Lady in Red”), mas é inegável a habilidade da Jolin em montar tracklists coerentes e que conversam com os tipos de sonoridades em alta internacionalmente. Se vocês não conhecem nada do MandoPop (que é a música pop em mandarim feita na China, Hong Kong, Macau, Taiwan etc.) fora os lançamentos chineses dos idols coreanos, sugiro darem uma olhada na página dela no Spotify. Esse single que eu escolhi, em especial, é bem mais experimental que seus demais, geralmente mais radiofônicos e “gostáveis” que isso.

Huh, o top 2018 é uma realidade. Já separei as músicas e coloquei em ordem. Resta agora resgatar o que escrevi sobre elas no outro blog e juntar com o que mais de novo devo acrescentar. Em breve, solto a primeira parte.

10 comentários em “Time Machine: Jolin Tsai, “Ugly Beauty” e a habilidade de colocar todos para pensar enquanto rebolam a raba (2018)

  1. As minhas favoritas do mandopop em geral são das disco-divas dos anos 80 (que hoje em dia só entregam baladões soníferos, mas que ainda valem a pena ressuscitar):

    a nossa boleira da nação também não faz feio mas nunca ouvi outro registro completo dela além do ugly beauty, por onde devo começar? não faço a mínima ideia.

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  2. Jolin MARAVILHOSA!!!

    Ugly Beauty é sensacional, já conquistando de cara pela música e pelo MV impecavelmente produzidos, e ainda mais quando a gente descobre as histórias por trás de cada cena nele.

    Além da faixa título, também amo Karma (um dos melhores casos de refrão instrumental nos últimos tempos, com um vídeo inspirado numa história tão real como chocante, mostrando que Jolin também é cultura) e Womxnly (uma música inspiradora e surpreendentemente leve sobre aceitação, considerando que foi inspirada em um garoto encontrado morto depois de sofrer bullying constante na escola por ter jeito afeminado).

    E acho que isso é uma das coisas que me encantam na Jolin: ela consegue conciliar mensagens impactantes com músicas envolventes, sem que uma coisa atrapalhe a outra. Arrisco dizer que, hoje, ela é a cantora pop mais interessante não só do mandopop, mas do mundo (vide a performance na virada de 2018 pra 2019, com Jolin fazendo um medley de hit atrás de hit com muita coreografia, efeitos especiais e – pasmem – até vocais ao vivo… Britney could never).

    Curtido por 2 pessoas

    1. A propósito, tá acompanhando os teasers pro comeback do LOONA?

      Infelizmente a HaSeul não participou mesmo dele; as fotos só mostram as outras garotas. Em todo caso, algumas mudaram seus cabelos (HyunJin tá ruiva, Yves tá de cabelo mais curto e a Pirralha do Sapo tá LOIRA) e, a julgar pelas fotos, o comeback será um Evil Paquitas concept… parece interessante.

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        1. Pocket Girls ICÔNICAS!!!

          Mas mesmo com as dívidas da BBC, só o teaser da HeeJin indo pra Lua já teve um orçamento maior do que as Pocket Girls tiveram em toda a carreira…

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