O argumento de que o BTS mudou sua sonoridade ao estourar internacionalmente procede?

E aí, leitores casuais. Se divertiram com os eventos desse fim de semana envolvendo a army me xingando aqui, no Twitter e dizendo por email que nem minha mãe tinha amor por mim? Eu adorei. Deu um boost de popularidade aqui pro Miojo Pop e pro meu perfil pessoal lá no Twitter comparável ao que rolou com o Esquadrão Lunático naquele post onde eu dizia o que esperava de conceito no debut do Loona, mas os orbits defensores do aegyo-como-resposta-feminista-ao-machismo-coreano interpretaram como “as 12 precisam vulgarizar esfregando a raba na câmera, caralho”. Bons tempos.

A maioria dos comentários foi bem descartável ou fã-adolescente-101 (o argumento de que eles faziam arte e não K-Pop foi particularmente hilário, embora não renda muito assunto), mas rolaram alguns que, vejam só, realmente me fizeram pensar sobre algumas coisas e, oh wow, me inspiraram para esse post. Segue abaixo um exemplar deles como ilustração:

Eu não tinha me atentado para isso antes (provavelmente por não acompanhar tanto a fanbase do BTS), mas há uma ideia que parece reger os pensamentos dos fãs do grupo de que, após os esforços internacionais deles e, consequentemente, sua explosão mundial, os sete guerreirinhos dos charts mudaram sua sonoridade para um maior apelo global. Que o que foi feito até, mais ou menos, 2016 representa um “BTS coreano”, enquanto seu material posterior mostra um “BTS mundial”.

Não vou teorizar se o que o BTS faz ser ou não K-Pop, pois a discussão não faz sentido nenhum. Eles são idols coreanos, seus lançamentos seguem as regras de lançamentos de idols coreanos (EPs e LPs trabalhados com um single e uma ou duas b-sides em programas de TV, coisas desse tipo). É K-Pop e pronto. E calhou de, mesmo sendo K-Pop, o reconhecimento e acamação fora da Ásia vir com força. Não admitir isso ou qualificar o BTS como “não-k-pop”, “a-pop” ou, sei lá, “BTS-pop” me soa como uma mistura de ingenuidade com xenofobia, da qual não tenho paciência para corroborar.

A ideia desse post, na verdade, é fazer uma comparação entre lançamentos principais do BTS antes e após o estouro internacional, tentar reconhecer se, de fato, ocorreu uma mudança na sonoridade do grupo após essa virada de chave em sua popularidade. E nisso, aproveitar para analisar se a tal versatilidade do grupo ficou ou não mais acentuada desde então. Afinal, o argumento de que o BTS mudou após explodir globalmente faz ou não sentido? Spoiler: A resposta é não…

Acho que todos nós concordamos que o “ponto zero” da escalada internacional do BTS foi vencerem no Top Social Media Artist Award, do Billboard Music Awards, em maio de 2017, certo? Foi a partir daí que eles começaram a ser presença garantida em uma porção de outras premiações americanas e programas de TV de lá, não? Então, em ordem de lançamento…

Dançante e Voltado Para as Pistas Concept em “DNA” (setembro de 2017)

Em 2017, o BTS retornou com a divertidinha “DNA”, sendo o primeiro dos singles deles a ser trabalhado em programas estadunidenses. Visualmente, acredito ser o primeiro momento mais “colorido” do grupo, mais descontraído que as duas vibes estéticas apresentadas por eles anteriormente: a de bad boys do Hip Hop e a de caras soturnos e emotivos em vídeo.

Contudo, instrumentalmente, isso já não era novidade em sua discografia…

Dois anos antes, em “Run”, os 7 já haviam explorado essa sonoridade dançante para as pistas. Ainda é naquela estética de vídeo fria, melancólica, sim, mas musicalmente é uma repetição.

Urban Pop Dance Ethereal Concept em “Fake Love” (maio de 2018)

Os investimentos da era anterior haviam sido bem empregados, com a marca BTS se tornando bem forte internacionalmente. Em seu primeiro comeback como “global act”, elas soltaram essa mistura de Urban com dance eletrônico e todo um aparato instrumental e vocal mais viajado que dava à produção uma roupagem mais “etérea”. Foi um hit, mas não uma novidade…

Eles já haviam feito isso quatro anos antes, em “I Need U”. E reprisado em “Save Me”. Ambas ótimas. É, nenhuma novidade em “Fake Love”. Será que surgia algum ineditismo no single seguinte?

Pancadão Étnico World Music Quebrador de Fronteiras em “Idol” (agosto de 2018)

Mais um megassucesso, dessa vez contando até com uma versão em parceria com a Nicki Minaj, que não se deu ao trabalho nem de gravar suas linhas para o MV, mas quem se liga em detalhes?

Mas ser um megassucesso não necessariamente faz de “Idol” inédita dentro do catálogo do BTS…

O grupo já havia explorado isso de misturar sonoridades “étnicas” numa farofa anos antes, na excelente “Blood, Sweet & Tears”. Acontece que esses sintetizadores tropical foram exaustivamente utilizados por vários outros grupos coreanos à época, enquanto os sintetizadores “africanos” (pfffffffff) de “Idol” não, mas a ideia é a mesma.

Pop Chiclete Dançante Boy Next Door Concept em “Boy With Luv” (abril de 2019)

Eu adoro essa aqui, adoro a guitarrinha em evidência, o clima aconchegante e radiofônico e tudo mais. Inclusive, acho que ela se tornará a “faixa assinatura” do BTS daqui em diante. Mas sabe quando eles já haviam explorado esse lado “boygroup descontraído que coloca pra dançar” antes?

…lá em 2014, com “Just One Day”, também graciosa, também throwback, também com instrumentos reais em maior evidência. Sem novidades, novamente.

Caras Sérios do Urban Rap Mandando Rimas Ye Ye Ye Concept em “Black Swan” (janeiro de 2020)

Vocês sabiam que, no começo de tudo, era para o BTS ser um grupo de Hip Hop?

Com isso tudo posto em mesa: não, o argumento de que o BTS mudou sua sonoridade ao estourar internacionalmente não procede. O grupo, assim como tantos outros acts de K-Pop, já vinha adotando influências diferentes em seus singles desde antes de tentar uma escalada internacional. E os singles que vieram após esta ocorrer somente reprisaram essa versatilidade.

Versatilidade essa aqui que, reforço, é algo comum dentro do universo de grupos e artistas idols coreanos. O K-Pop tem por característica absorver influências internacionais, fazendo com que seus acts funcionem aos ouvidos de qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. O K-Pop foi feito para isso, foi feito para que extrapolasse o consumo doméstico e se expandisse globalmente – o que está acontecendo atualmente. O BTS é parte disso, ainda é K-Pop. E não mudou desde que ganhou mais fama que os outros.

Se atentem aos fatos, galerinha. Há MUITO o que celebrar do grupo. Não é preciso criar loucuras sem sentido para justificá-lo. Relaxem e curtam os bons louros vindos deles. Como o act de K-Pop que são, é bem provável que continuem entregando uma porção de faixas nessas variantes sonoras adotadas por eles há anos. O resultado pode não ser tão bom às vezes (acho “Black Swan”, “Fake Love” e “Idol” terríveis…), mas é certo que bons bops genéricos poderão ser pincelados mesmo por quem não é da fanbase (“DNA” e “Boy With Luv” são super divertidas).

17 comentários em “O argumento de que o BTS mudou sua sonoridade ao estourar internacionalmente procede?

  1. Eu ainda gosto bastante da maior parte dos singles do bts, acho que o único desde 2016 que eu ainda achei meio sofrível foi Fire mesmo, mas pra mim é inegável que a qualidades das bsides caiu um pouco. Antes elas eram bem mais puxadas pro hip-hop e hoje em dia é tudo uns trem sem pulso e muito menos agressivos que antes. Tem quem goste, mas uma boa parte do fandom sente falta dessa sonoridade dentro dos albuns (eu achava que tava sozinho até achar umas armys velhas de guerra com a mesma opinião). Persona e Dionysus do último album deles foi praticamente um biscoito jogado pra quem tava sentindo falta disso (eu).

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  2. Particularmente eu acho que esse movimento e, hum, “mudança” de sonoridade tem muito mais a ver com o timing do grupo do que com algo mudando em si. Esse Trip Hop do último single, por exemplo, é totalmente o que o adolescente tumblr vem consumindo hoje em dia e o que vem tocando nas rádios, então eles lançarem isso agora dá certa vantagem antes dos boygroups de K-pop começar a fazer suas versões com 6 meses de delay. Acredito que, na prática, eles só tem um timing e uma fanbase mais eficiente na hora de fazer acontecer (E muito por isso que fico curioso pra ver como vai ser depois do exército, já que a Big Hit quer mandar os 7 pra lá ao mesmo tempo e não deve ter lançamentos solo nesse meio tempo pra manter o nome quente)

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  3. As armys realmente levam a sério esse argumento de que eles mudaram de sonoridade pra se adequar ao cenário ocidental? Teve uma época, quando eles já estavam grandes na Coreia, mas ainda não tinham estourado (tanto) internacionalmente, que tudo que eles lançavam parecia sobra do Purpose do Bieber…

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  4. Cuidado, Lunei, você fica aí provocando as armys, daqui a pouco vem uma enxurrada delas invadir aqui…

    Como eu não tô nem aí pro BTS, prefiro discutir a tracklist do EP novo do LOONA (sem Monotree e com 365 incluída… será que vai dar certo?), mesmo.

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  5. Na minha irrelevante opinião de ex army (sim, tem cura huahuau) faz mais sentido dizer que a estética deles de adolescentes do hip hop foi reformulada pra agradar mais facilmente

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  6. Quando eu digo que gosto dos trabalhos antigos do BTS são justamente as faixas que eles não “reprisaram” depois do boom internacional. A maioria dos repetecos são bem meia-boca comparados ao que fizeram antes e pensando no que poderia ser feito já que agora a empresa tem capital para desenvolver coisas realmente groundbreaking.

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  7. Entendo que teve inspirações semelhantes mas ainda acho as músicas comparadas meio diferentes? Não sei explicar 🤔
    Ainda prefiro as músicas antigas talvez por apego, mas por exemplo, quando fui comparar wings com outros álbuns posteriores deles achei as músicas no geral mais trabalhadas e com mais acabamento. Não sou nenhuma especialista né mas foi a sensação que eu tive com a grande maioria das músicas b-sides, os singles nem tanto. Talvez seja só impressão minha mesmo. PS: Run hino do caralho nunca farão algo tão perfeito

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  8. Eu gosto das musicas do BTS, mas o meu problema é com a fanbase que acha que tudo que eles lançam é a melhor coisa do mundo, é a melhor musica já lançada, são os únicos que se esforçam pra cacete nessa industria idol, que o resto é merda perto deles. Uma vez falei que achava uma musica melhor que a deles pra uma “army” meu deus achei que a menina ia mudar pra minha cidade pra me bater, gente eu achar uma musica melhor que a outra não quer dizer que não vou ouvir nenhuma, só que uma se sobressaiu mais e irei ouvir mais. BTS conquistou o mundo e parabens pra eles, só tenho pena das suas fãs mesmo.

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  9. Ah, viu o teaser novo do comeback do LOONA?

    Apesar da falta da HaSeul e do Monotree, parece que o negócio vai ser bom! Destaque pra uma das meninas (achava que era a Chuu, mas parece que é a ViVi) caracterizada como TRAFICANTE DO MORRO!

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      1. É que mesmo se for ruim, já valeu só por colocarem elas caracterizadas de traficantes…

        Mas o otimismo é só em relação à qualidade do comeback; em relação ao sucesso, já me conformei que o GFRIEND vai massacrar elas nos charts e nos Raul Gils coreanos (e se não for o GFRIEND, vai ser algum boygroup qualquer).

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      2. Em relação à qualidade, sim. Em relação ao desempenho, já me conformei que elas vão ser massacradas nos charts e Raul Gils por quem quer que esteja fazendo comeback no mesmo período…

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