ALBUM REVIEW | IZ*ONE – BLOOM*IZ (2020)

Sabem aquela sensação avulsa de que todos em seu delimitado nicho conhecem, compactuam, curtem, entendem, se importam, etc., com determinado treco, enquanto você fica totalmente alheio a ele? Lembro que lá por 2011 ou 2012, todos do meu bocó mundinho nerd online estavam aficionados por Game of Thrones, cuja primeira temporada havia acabado de passar. Não só comentavam os episódios, como pirateavam os livros e diziam quase morrer em êxtase com os textos do velhote lá (ainda que fossem traduzidos de maneira não oficial para o português… adolescentes na internet se esforçam tanto para parecerem mais cools e cultos do que são, bleh). Mas eu mesmo só fui começar a assistir o novelão em 2014, quando a quarta temporada estava em andamento.

Tenho a impressão de que isso se repetiu recentemente com o IZ*ONE. Diferente do que rolou com o I.O.I, em 2016, onde eu acompanhei todo o desempenho das integrantes dentro do Produce 101, a ponto de me importar minimamente com o line up e com os rumos que a tão interessante ideia de grupo temporário tomaria, e com o Wanna One, no ano seguinte, que não assisti na segunda temporada do reality, mas acompanhei atentamente através de resumos no blog do Sowon Xiita, eu caguei totalmente para o run do Produce 48, de modo que mal conheço as integrantes do grupo vitorioso.

A ideia era ótima no papel: fechar uma parceria com a franquia AKB48, do Japão, que enviaria metade das competidoras para o programa, de modo que, no saldo final, esse seria um grupo oficialmente dividido entre gatinhas coreanas e gatinhas nipônicas, promovendo igualmente em ambos os países. Falavam até sobre, talvez para evitar situações xenofóbicas, as integrantes coreanas serem escolhidas pelo público japonês e vice versa. Mas o caldo desandou rápido, a maioria das ideias iniciais morreu na praia, tudo acabou como um programa normal da franquia e pouquíssimas meninas dos 48 entraram no line up final (com os escândalos de fraude envolvendo programas da MNET, acho que sabemos os motivos). Nisso tudo, não me dei ao trabalho de assistir quase nada e mal lembro o nome das envolvidas (exceto a Sakura, que já conhecia de antes).

Corta para 2020 e o IZ*ONE, ainda que bastante prejudicado pelos já citados escândalos, tornou-se um grupo que não vai mal dentro do K-Pop, que gera burburinho no nicho, mas que ouvir, ouvir mesmo, eu só ouço La Vie En Rose. O IZ*ONE é a grande pauta que eu não conseguia me importar de verdade desses últimos tempos, a ponto de sequer lembrar as melodias de seus releases japoneses, por exemplo, ou de levar um susto ao ir pesquisar sobre elas e me recordar que a Kaeun, do After School, quase entrou no jogo. Só eu nessa?

Dito isso, é bem provável que essa indiferença acentuada tenha contribuído positivamente para minhas audições do mais recente (e talvez último dentro da Coreia do Sul) álbum do grupo, BLOOM*IZ. Porque, ó, não fosse umas escolhas meio equivocadas aqui e ali na tracklist, eu teria dado fácil uma nota máxima nessa review.

O grande acerto do IZ*ONE e dos produtores responsáveis pelo grupo nesse comeback foi optar por construir esse álbum como o que parece ser uma grande competição para ver qual faixa nele será a vitoriosa e, ao fim, se tornará sua title. Como resultado: a maioria delas soa como singles radiofônicos que poderiam ser trabalhados como produto principal e não só como material para encher 40 minutos de LP. E isso é feito apostando em diferentes fronts, fazendo com que ele carregue uma coleção canções bem variada, mas até que coerente entre si.

Coisas como DreamlikeAYAYAYA acertam em cheio ao proporcionar ao ouvinte bons números dentro daqueles moldes “tropical house/dancehall”, ainda que com pegadas totalmente diferentes quando colocados lado a lado. A primeira, mais emotiva, açucarada, quase fofa em sua execução, com as meninas cantando como se fossem adolescentes vivendo o seu primeiro amor e essa sensação fosse mágica, vinda dum conto de fadas. A outra, mais agressiva em seu instrumental, afiada, como se elas colocassem suas garras para fora em forma de interpretação vocal – algo bem exemplificado nas apresentações ao vivo, onde o aegyo é quase deixado de lado em prol duma coreografia girl crush:

Mas não é como se o grupo estivesse fazendo algum tipo de transição de imagem aos 45 do segundo tempo. O aegyo chave de cadeia ainda é a maior aposta do IZ*ONE, o que é perceptível por quase todo o resto da tracklist ser composta por canções nessa linha. E canções boas, no caso.

So Curious estaria em casa como música de fundo para algum programa infantil do Discovery Kids – e digo isso como um elogio. O instrumental parece montado a partir de sons retirados de brinquedos do pré-escolar. Poderia soar irritante, mas as meninas não forçam muito o vocal, a back track vai adquirindo mais elementos pop e, no seu desenvolvimento, uma porção de melodias catchy são adicionadas. Spaceship vai mais ou menos nessa onda, mas com uma ênfase maior em sintetizadores eletrônicos upbeats, deixando o resultado final com cara de Red Velvet em início de carreira. Já Destiny me lembra o repertório de ainda outro grupo, GFRIEND, mesclando white rock ethereal com metais e signos medievais para entregar o que poderia fácil ser o tema de algum anime shoujo da temporada.

As três faixas acima acertam em cheio ao criar essa atmosfera “infantil” com certa classe, finesse e delicadeza. Não são músicas que salvam a vida de ninguém, certamente não entrariam numa lista de melhores do ano, mas compõem uma tracklist muito bem, fazendo da experiência até os momentos de ápice bastante agradável. Uma pena isso não ter sido pensado para Pinkblusher, certamente seu pior momento. O bom senso, aqui, é deixado de lado, com o instrumental espevitado infantiloide sendo interpretado com vocais muito agudos, deixando a track toda imperdoavelmente irritante.

Ao menos, é uma exceção. Em questão de baladas, por exemplo, o grupo também acerta. A ênfase que dão ao violão e a maneira mais simples “ao redor da fogueira” que as integrantes cantam tornam You And I um momento bem bonito de escutar. Gosto muito da voz da Yuri aqui, um tiquinho desafinada, mas certeira em proporcionar passionalidade. Someday já mira em influências mais relacionadas ao R&B contemporâneo, com uma interpretação vocal mais empostada, trabalhada e condizente com o número buscado. O refrão é muito bom.

E é quando os produtores resolvem pirar nos usos eletrônicos dos instrumentais que as coisas atingem o seu maior nível. Eyes funciona como se um lado mais fofinho e outro mais soturno estivessem saindo na porrada, com momentos de pura glicose sendo mesclados com outros bem ácidos num estalar de dedos. Daydream, a melhor das album tracks, sing-along para um caralho, me lembra o que o Michael Jackson faria na era “Thriller” em questão de afinações, mas com uma descambada pro house dançante que fica imbatível em execução. Open Your Eyes me traz mais uma sensação “Calvin Harris tentando ser oitentista”, com o pancadão para as pistas sendo o centro das atenções, mas alguns signos de trinta e tantos anos atrás aparecendo ao fundo, dando uma sensação melancólica estranha – e ótima – de ouvir.

Eu havia dito que o álbum como um todo me parecia uma grande batalha para decidir qual demo nele seria a title, certo? Não sei se a mais interessante em termos de ousadia instrumental ou originalidade de ideia se saiu melhor nessa disputa, mas inegável que Fiesta, entre todas, é a que mais grita hit no K-Pop. É ainda outra reimaginação de “4 Walls”, do F(x), eu sei, eu sei. Mas o que fazer se reimaginações de “4 Walls” quase sempre costumam ser muito boas? Nesse caso, maravilhosa, linda, contagiante, empolgante, cintilante, envolvente, arrepiante. “Fiesta” é como uma explosão de glitter em forma sonora, colorida ao extremo, inegavelmente cativante. Será que os DJs europeus que trabalhavam o garage housedeep house e demais desmembramentos desse gênero décadas atrás imaginariam que, hoje em dia, uma porção de acts para adolescentes na Coreia do Sul beberiam tanto dessa fonte para entregar uma porção de bops? Com o MV inacreditavelmente lindo, “Fiesta” atinge o posto de pop heaven que todo grupo gostaria de ter em sua discografia, sendo a melhor do álbum e do IZ*ONE como um todo.

Voltando ao começo do texto, em dados momentos, senti que deveria ter dado uma chance a Game Of Thrones bem antes. A primeira temporada toda foi excelente, o segmento do casamento vermelho na terceira (?) também. Em outros, no entanto, não vi graça nenhuma em tal história lenta com artifícios soup opera (não acontecer nada de empolgante nos episódios, mas fechar com um final gatilho pro próximo, por exemplo) travestida de épico medieval. Com o IZ*ONE, infelizmente, não sei se ainda rolará a chance de observar o grupo ir por um caminho muito bom, ou muito ruim, já que é bem provável que seus dias, antes já limitados, estejam com ainda menos dias pela frente. De qualquer maneira, se for o fim, ao menos foi com seu ápice. Uma porção de músicas excelentes para embalar o meu 2020. Do que reclamar?

Nota 7,5

8 comentários em “ALBUM REVIEW | IZ*ONE – BLOOM*IZ (2020)

  1. Lunei, eu tenho muito interesse em me jogar no mundo do jpop, mas não sei por onde, as únicas coisas que conheço são Perfume, KPP e algumas produções do Yasutaka Nakata. Poderia me dar uma recomendação legal? E sobre o album, DREAMLIKE maravilhosa.

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    1. Alguns dos artistas atuais que eu ouço e que estão no Spotify: Daoko, FEMM, Wednesday Campanella, Mondo Grosso, BoA (os álbuns japoneses, huh), Che’Nelle, RiRi, Faky, Chanmina, Koda Kumi, Reol, Happiness, Daichi Miura, Utada Hikaru.

      Uns outros acts que não estão mais em atividade, ou não com a mesma frequência, mas têm uma discografia bem legal e que vale a pena conferir: Namie Amuro, Ayumi Hamasaki, E-Girls, Flower, Mika Nakashima…

      Acho que com esses aí você já consegue começar a se aventurar. 😀

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