ALBUM REVIEW | Rina Sawayama – SAWAYAMA (2020)

Artistas buscam diferentes reações quando montam seus álbuns. Falo isso levando em conta tudo nele: arte de capa, título, modo como as canções são dispostas na tracklist, instrumentais das músicas, letras, tudo.

Em um de meus discos favoritos da vida, “Stripped”, da Christina Aguilera, é possível identificar, a partir dos elementos que citei, que ela, lá em 2002, fitava fugir da imagem de “disney girl” trabalhada anteriormente, explorando temáticas sexuais, adultas e mais vulneráveis, esbanjando também todo um conhecimento em questão de afinações e estéticas retrôs que, sabe-se lá como, casaram perfeitamente na mistura.

Ouço o “Confessions on a Dancefloor”, da Madonna, e penso em como todo ele soa como um set dance para uma balada de sei lá quantos anos atrás. Ouço o “Purpose”, do Justin Bieber, e quase consigo imaginar ele e seus produtores numa sala comemorando o quão “antenados” com sonoridades que viriam estourar tempos mais tarde eles eram. Ouço o “Lemonade”, da Beyoncé, e a primeira coisa que me surge é um “porra, Jay Z…”

Com isso em mente, não consigo pensar em um intuito melhor que “despertar tristeza” para descrever o SAWAYAMA, primeiro álbum de estúdio da Rina Sawayama – e forte concorrente a AOTY de 2020…

Não conhecia a Rina Sawayama. Meu primeiro contato com ela foi no início desse ano, através de panfletagens safadas do meu amiguinho Dougie no Twitter. E que pena que demorou tanto, pois já há algum tempo ela vinha soltando canções com padrão de qualidade de “ótimo” para cima, caso de coisas como Cyber Stockholm Syndrome, Afterlife, CherryFlicker e várias outras trabalhadas após seu “debut”, em 2017.

Rina é japonesa, mas se mudou bem cedo para Londres, onde vive desde então. E embora eu tenha zero ideia sobre como foi sua formação como pessoa ou sobre seus eventuais sofrimentos como criança e adolescente nipônica vivendo em UK, ao escutar o “SAWAYAMA”, posso desenhar na minha cabeça o quão dura sua vida deve ter sido, enfrentando não só os racismos e xenofobias “socialmente aceitos”, como ainda outros diferentes fantasmas ao longo do tempo: depressão, insegurança com a imagem, baixa autoestima, pressão familiar, a lista deve seguir.

Pode ser que as letras sejam confessionais, relatos pessoais, ou pode ser que ela simplesmente tenha criado uma persona, um eu lírico, para esse álbum baseada em ideias previamente montadas. A certeza é que, se a ideia era abraçar a desgraça e expurgar esses demônios em forma de música, colocando o ouvinte pra baixo como consequência, isso deu certo. Esse álbum me destruiu, tamanha é sua eficácia nesse sentido.

Dynasty abre a tracklist com uma grandiosidade orquestral que lhe confere uma dramaticidade arrepiante, ampliada ainda pela adição de guitarras e baterias que adquirem intensidade conforme os versos vão passando e a raiva da Rina, ao cantar sobre a dor hereditária que carrega em seus veias, se torna mais e mais evidente.

Essa raiva ganha ainda ares irônicos no que vem a seguir, XS, um dos grandes destaques desse comeback e, até então, de 2020. Nessa, Rina veste uma máscara, como se fosse uma idol, e dança conforme a música da sociedade, falando sobre obsessão por consumo, sobre estar bem para os outros. O instrumental é interessantíssimo, brinca com aquele r&b agitado à moda dos anos 2000, com um violão frenético e quase sensual, perfeito para performances carregadas em coreografias, carões, o sonho molhado de várias cantoras há duas décadas. Até que, em momentos chaves, a coisa toda estoura e guitarras distorcidas, como sirenes, mostrando que há algo errado, que aquilo não é de verdade. E com o videoclipe acima, onde ela encarna a vendedora de um líquido dourado misterioso, mas que esconde um segredo grotesco por trás, as coisas ganham ainda outro nível.

A raiva irônica é deixada de lado, sendo substituída por ódio puro e explícito em STFU!, momento de maior peso instrumental do álbum. Ouvir isso aqui é quase como ouvir Korn, Royal Blood e outros grupos do tipo, mas com um vocal feminino e uma âncora que a prende ao pop: o refrão onde Rina manda que calem a boca repetidas vezes, mais adocicado, colorido, mas efêmero, pois a agressividade retorna rápido em mais outras seções de pancadaria heavy aos ouvidos deliciosas de acompanhar.

E quando isso é visto no clipe abaixo, onde ela precisa aturar um babaca em um encontro terrível, resumindo ela como pessoa e toda sua cultura através de referências limitadas de cultura pop, o pacote inteiro fica impagável…

Sheena Ringo estaria orgulhosa…

A sequência de faixas distintas a explorarem suas inseguranças através de diferentes ideais de arranjos retira do álbum qualquer “monotonia” (em relação a se repetir musicalmente, no caso) que ele poderia se deixar cair. Essa é uma armadilha que a Rina e seus produtores não se deixam cair, pois é como se uma sequência de singles distintos fossem reunidos tento isso como guia, mas atirando em vertentes variadas.

Em Akasaka Sad, seu momento mais bizarro aos ouvidos, ela canta sobre ser triste, sobre ser depressiva, sobre não portar qualquer nível saudável de autoconfiança, usando para isso um instrumental trap esquisitíssimo, quase que agoniante, que se modifica e puxa mais elementos tortos a cada nova rodada de versos. A gritaria no final quase assusta numa primeira ouvida. O tema retorna em Paradisin’, mas feito a partir do completo oposto musical: utilizando um batidão japaneses 8-bits ultra animado, vibrante, pra cima (VIVO para o sax na bridge), que deixa um sabor agridoce na boca ao percebermos que ela está cantando toda empolgada sobre sentimentos absurdamente obscuros.

Comme Des Garçons (Like the Boys) é ainda outro mega destaque da tracklist, pois (meio que) engana o ouvinte ao utilizar todo o charme do garage house 90s para vender uma letra sobre ter confiança em si mesma. Exceto pelo fato de isso tudo ser um fingimento. O “agir como os garotos” aqui, novamente, é uma espécie de máscara, um act, algo que precisa ser repetido e encenado (tal como o clipe tenebroso ali). Perco o chão quando rola o primeiro verso logo após o refrão, “Yeah, oh, girl, it’s okay / You should never be ashamed to have it all / Yeah, it’s gonna be okay / Yeah, you’ve come a long way”, é como se fosse atingido o nirvana do pop.

Love Me 4 Me faz quase o mesmo em questão de “farsa” aos ouvidos, entregando um new jack swing rebolativo que, num primeiro momento, parece ser sobre se sentir bem consigo mesmo, se amar, mas se desvela num canto fatalmente pessimista, com Rina expondo que não consegue gostar de si mesma, ainda que se esforce, e deposita essa responsabilidade toda nas costas daquele que ela ama, que irá sobreviver apenas com isso. O refrão é grude puro, me parece algo que a SM compraria para SHINee ou SuJu. E entra uma guitarrinha new age ao fim? Céus!

Mas acho que nenhuma das citadas até então consegue ser tão triste, tão pra baixo, tão devastadora quanto Bad Friend. Isso aqui é de cortar o coração! O instrumental inicial, com ela contando sobre feitos com os amigos, vai por um caminho mais engrandecedor, cintilante, mas aí chega o refrão onde ela diz que, na real, é um lixo como amiga, e a voz dela é distorcida, como se fosse um robô, e eu sou levado ao fundo do poço. O sentimento fica ainda pior quando rola um coral gospel e ela implora para que seus amigos, abandonados, deixem seus erros de lado e a perdoem. Puta que pariu…

A partir daí, é como se ela simplesmente desistisse, com o LP afundando-se num pessimismo que, a cada faixa, atinge como um soco no estômago. A começar pelo interlude F**k This World (cujo instrumental aparado por teclados viajados no ácido me lembram os álbuns da Utada Hikaru na primeira metade dos anos 2000), que traz a letra mais mortífera do álbum, onde ela deixa tudo e todos de lado e para de se importar. “Morre” como ela mesma.

O que é ainda mais explorado em Who’s Gonna Save U Now?, que parece cantada por outro ponto de vista, como se ela se olhasse de fora e risse transtornada de seu fracasso como pessoa. Ela diz para seu “eu” anterior que ela mesma queimou todas as chances de contato, todas as pontes com os outros, todos os meios de ajuda que poderiam ser oferecidos. “I wish you well, but go take it somewhere else (tudo de positivo pra vocês, mas vá encher o saco pra lá)”. E tudo com um instrumental rockish metaleiro de estádio lindão.

Aquela máscara “idol” feita de chacota, ironizada lá em “XS”? Uma boa opção, que ela começa a vestir em Tokyo Love Hotel. Ela canta sobre ser uma farsa, sobre se achar muito especial, mas não conseguir transmitir nada de original, sobre ser uma repetição do que outros já fizeram. “É apenas mais uma música sobre Tóquio”. E com aquele mesmo instrumental r&b lo-fi que insiste em aparecer um playlists “japonesas de estudo” no YouTube. Genial. Instrumental bonitinho esse que continua em seguida, na baladinha Chosen Family, graciosa ao extremo, inspiracional, que certamente seria tida como um grande hino, caso lançada por alguma diva idol nipônica de alto escalão.

Seu (terrível) fim é em Snakeskin, com o eu lírico trabalhado até então, enfim, percebendo que não há escapatória, voltando ao começo, à “XS”, e entendendo que, ou se deixa levar pelo “normal”, pelo consumismo, pelo que dita a cultura da imagem, ou não segue. Que é melhor isso que morrer. Triste pra cacete. E tortíssimo aos ouvidos com uma confusão causada pelo instrumental EBM adotado. Não há final feliz. É uma tragédia.

A Rina Sawayama conseguiu em seu primeiro álbum de estúdio nos vender uma narrativa depressiva e pessimista muito bem amparada por todos os artifícios utilizáveis em trabalhos desse estilo. Visualmente, instrumentalmente, liricamente, o LP nos afunda num pântano de melancolia, puxando a cada nova faixa um pouco mais para o fundo, sem oferecer cordas para escapar.

Na real, havia dito que não conseguia pensar em um intuito melhor que “despertar tristeza” para descrever o “SAWAYAMA”. Mudei de ideia. Ouvindo todo ele, a impressão que dá é que a Rina quis aflorar outra coisa com esse álbum, no ouvinte e nela: despertar CATARSE. É cantar (e ouvir) para se purificar. E conseguiu.

Nota 9,3

9 comentários em “ALBUM REVIEW | Rina Sawayama – SAWAYAMA (2020)

  1. Fazia muito tempo que eu não ouvia um álbum tão bom, do começo ao fim, sem nenhuma faixa descartável! E é fantástico que, apesar de cada música ter uma sonoridade própria (e às vezes completamente distinta das outras), existe uma coerência sonora entre elas em vez de parecer um punhado de músicas aleatórias socadas no mesmo CD (ou aplicativo musical à sua escolha).

    Não tinha percebido essa temática de tristeza e catarse compartilhada ao longo do álbum (pelo menos não em todas as faixas), mas você está completamente certo – e isso só torna o trabalho ainda mais interessante! A gente fica até confuso ouvindo Paradisin’ e Love Me 4 Me, com aquela sonoridade feliz e pra cima, e de repente percebe que a letra segue um sentido completamente oposto…

    Descobrir a Rina Sawayama é mais um ponto que eu devo pra blogosfera (aliás, estou preparando um texto de reflexão em cima de uma dessas músicas para o blog da Carla). Essa mulher é fantástica, e espero que ela consiga o reconhecimento e o sucesso que ela merece!

    Curtido por 2 pessoas

  2. É realmente incrível como esse LP tem 13 músicas e nenhuma mediana ou ruim, e vale pontuar todas as referências a outros artistas que a Rina declarou ter usado pra fazer o álbum, inclusive oq tu falou da Utada não tá errado, a Rina é super fã dela.

    Top 5:

    Paradisin
    Who’s Gonna Save U Now
    STFU!
    Tokyo Love Hotel
    Snakeskin

    Mas fico com o Fetch mesmo pra AOTY :V

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  3. Ela já virou minha cantora favorita com esse álbum ,as letras que retratam a dor dela e tudo que passou sobre sua vida e seus pensamentos mais obscuros é algo realmente triste de ver ,além disso que ótima sacada usar músicas com instrumentais coloridos para” iludir” os ouvidos dos ouvintes fazendo nós pensar sobre uma música que fala algo belo e esplêndido .
    Além que who’s gonna Save u now me traz uma vibe de quero que toda essa poha acabe e além disso é a faixa com melhor perfomance vocal dela no álbum.
    Meus elogios e sucesso à esse talento ela trouxe um trabalho bom e bem feito e o melhor disso um trabalho sincero e de coração.
    Ela tem que fazer sucesso logo ,ou se não vai continuar lançando musicas boas para seus 15 fãs (como Clarice falcão)

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