Time Machine: quando o Ladies’ Code usou o luto para entregar dois dos singles mais bonitos do ano, “Galaxy” e “The Rain” (2016)

Em tempos de redes sociais, nos acostumamos a banalizar a “tristeza” como um termo. Coloquem isso dentro do nicho de K-Pop, do qual fazemos parte. É muito comum que categorizemos como “triste” coisas que, não necessariamente, são isso, ou que, ao menos, não deveríamos considerar assim. Exemplo próprio: lembro que, tempos atrás, estava conversando sobre alguns grupos antigos que acompanhava quando comecei a me inserir nesse meio, aí falei algo como “nossa, a trajetória do F(x) foi bem triste”. E não. Parando pra pensar, a trajetória do F(x) não foi triste. Em sete anos de carreira, tiveram uma porção de comebacks, venderam milhões de cópias, foram o segundo maior nome feminino da SM em seu tempo, as integrantes parecem ter juntado uma boa grana. E como idols, ainda me deixaram, ao menos, quatro álbuns excelentes (Red Light, 4 Walls, Hot Summer e Pink Tape), coisa raríssima em grupos sul-coreanos. Não há tristeza nisso.

Talvez por já ser um pouquinho (só um pouquinho mesmo, hein) mais velho que a maioria do público atual de K-Pop, consequentemente tendo passado por mais experiências ao longo da vida, já não considero “triste” de verdade que, vá lá, minhas expectativas acerca de gerenciamento de meus acts favoritos não sejam cumpridas. Ou mesmo (e agora vem uma pseudo-polêmica, será que vão me cancelar?) que esses artistas pisem na bola e façam determinadas merdas, com a Jimin reproduzindo comportamentos abusivos comuns dessa indústria com a Mina, por exemplo. Sei lá, só não é triste de verdade. No fim do dia, a vida segue na mesma, com lampejos de indiferença da minha parte.

Agora, querem saber de um momento realmente TRISTE, que marcou o público quando rolou e ofusca qualquer sentimento mais negativo que um “o gerenciamento porco YG está matando o BLACKPINK e eu vou morrer junto” finge parecer em importância?

No dia 03 de setembro de 2014, as meninas do Ladies’ Code viajavam de volta para Seoul após promoverem em outra cidade. No entanto, no caminho, um pneu traseiro da van onde o grupo estava se soltou, o que fez com que o veículo perdesse o controle e batesse em um muro. Nesse momento, duas das garotas, Rise e Sojung, ficaram em estado grave. Outra delas, a EunB, de 22 anos, morreu na mesma hora. Sojung era a que estava mais estável, passando por cirurgias para tratar suas fraturas. No entanto, sua equipe optou por não contar que EunB havia falecido antes disso, para que ela não tivesse nenhuma preocupação maior, o que gerou momentos bem akwards, com ela supostamente pedindo para que se desculpassem com o público por ela, pois não conseguiria cumprir a agenda de promoções do grupo, além de, quando terminou a cirurgia, ter ficado sem entender muita coisa quando as demais integrantes e membros da staff foram visitá-la vestidos de preto (era o dia do enterro da EunB). Rise, a mais instável, passou por várias cirurgias, mas não acordou de seu coma, morrendo no dia 07 de setembro, com 23 anos.

O Ladies’ Code era um grupo nugu. Elas debutaram como um quinteto em 2013, pela gravadora Polaris Entertainment (a BlockBerryCreative, do Loona, é um selo pertencente à Polaris), apostando em números pop chiclete em sua maioria, mas sem nenhum grande sucesso de público nesse primeiro ano de carreira (minha predileta é Hate You). Ainda assim, o acidente foi amplamente noticiado e discutido dentro e fora da Coreia do Sul. O caso foi acompanhado midiaticamente, com publicações questionando desde os culpados pela ejeção do pneu, até se a morte da EunB não havia sido culpa da mesma, que poderia estar sem o cinto de segurança na hora (isso foi desmentido depois). Isso extrapolou ainda o nicho. Os prints acima aqui do Brasil, por exemplo, são do Cifra Club (um site focado no mundo musical) e do jornal Extra (do grupo Globo).

Ele também mobilizou declarações de artistas nesse meio, expressando suas condolências através de redes sociais e declarações de imprensa, com um tipo de “período de luto” estabelecido nos próximos dias daquela semana, que atraiu uma seletiva campanha de ódio contra o T-ara, que lançaria seu sexto mini-álbum (o de Sugar Free) no próximo dia 11, mas parece ter passado percebido quando o 2PM (com Go Crazy) e o Girls’ Generation-TTS (com Holler), também a-lists, retornaram dias depois. Escolhas, né? Paralelo a isso, a fanbase do Ladies’ Code, com o auxílio de outros grupos de fãs, também fizeram uma campanha, mas mais positiva, para que a album track I’m Fine Thank You, de 2013, pegasse #1 nas paradas musicais (o que funcionou).

A morte é triste e o luto é uma das coisas mais terríveis que podem acontecer. À época, muito se especulou sobre o Ladies’ Code, se as integrantes continuariam com o grupo como um trio após a recuperação total da Sojung, se novas meninas seriam adicionadas no line up pela Polaris no line-up (o que seria de muito mau gosto), ou se rolaria um disband, com cada uma seguindo sua vida (no lugar delas, eu teria feito isso). E com o hiato do grupo em 2015, essa terceira opção era a que parecia mais provável. Entretanto, em 2016, o trio enfim anunciou seu comeback. E o que tivemos foi um dos releases, musical e visualmente, mais tocantes daquele ano:

Elas poderiam simplesmente seguir em frente e continuar com seus trabalhos mais descompromissados e ninguém teria nada com isso (por vezes, a melhor coisa no luto é deixar pra lá e continuar vivendo), mas em Galaxy elas utilizaram a dor dentro da arte, de modo a expurgar seus demônios e atingir uma catarse ao se expressarem. Na letra, elas cantam uma porção de metáforas espaciais (galáxia, astros, céu, infinito) se referindo à morte e a dor que ela causa, mas isso disfarçado dentro de um lirismo romântico que, quando lido sem o contexto correto, também funcionam como uma canção triste de amor.

Ainda hoje, acho “Galaxy” linda de ouvir. Elas conseguem transmitir um sentimentalismo de cortar o coração na maneira como cantam, com tudo sendo auditivamente ampliado no instrumental esquisito, com o tempo bem baixo, que parece mesmo algo galático, vindo de fora da Terra em seus sintetizadores viajados servindo de cama pruma mistura de R&B e Jazz que dão ao produto final um tom quase que provocativo, tão imersivo que é.

Ladies' Code (레이디스 코드) - Thank You LADIES CODE! - k-pop ...

E essa imersão é ainda aprofundada no MV espetacular, ultradetalhado, que usa uma porção de signos para mostrá-las como um trio (triângulos, jokenpos, disposição de objetos, lances de escadas, papéis de parede, cortes de alimentos, a lista segue), mas também reserva momentos para homenagear a Rise e a EunB, marcando que elas ainda fazem parte do grupo, ainda que não estivessem mais lá. O mais específico é o do gif acima, com elas três acompanhadas de duas bailarinas, em menor foco, mais atrás.

“Galaxy”, como um todo, serviu como uma ótima homenagem às duas meninas, vinda através de um single realmente bom, acima da média geral que o K-Pop vinfha entregando no ano de 2016. É nítido que houve um planejamento para que ele saísse do jeito que saiu. Consigo imaginar a equipe por trás elaborando numa mesa de reunião o que gostariam de fazer e que artifícios sonoros e visuais seriam utilizados nessa execução (coisa que se tornaria frequente na gravadora durante a promoção de pré-debut do Loona dali em diante, por exemplo).

Meses depois, o trio retornou com ainda outra title nessa pegada, a também lindíssima The Rain. Em comparação, enquanto “Galaxy” serve como uma catarse ao extrapolar os sentimentos, colocar tudo para fora, “The Rain” me parece mais um move on, um primeiro passo para, enfim, controlar a dor da perda e continuar a vida. Para isso, a letra repete a tática de dupla interpretação, com a chuva (ou as lágrimas) representando um relacionamento finalizado aos que não pegaram o contexto do acidente, ou o final do luto aos que estão cientes.

A parte mais representativa nela são os refrãos, com elas relatando que até tentam fingir indiferença quanto a essa tristeza, mas que tudo vai por água abaixo quando a “chuva” começa a cair. Na bridge, elas falam sobre a luz do sol (esperança), e do quanto querem agarrá-la quando estão molhadas pela “chuva”. Por fim, a última frase dita na letra “hear the rain” (ouça a chuva), talvez sintetize que é necessário passar por isso, continuar, mas também que não será possível isso acontecer, dali em diante, sem recobrar aquilo. Bom, qualquer um que já viveu luto sabe que é assim mesmo.

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8 comentários em “Time Machine: quando o Ladies’ Code usou o luto para entregar dois dos singles mais bonitos do ano, “Galaxy” e “The Rain” (2016)

  1. Lembro que só fui conhecer o grupo a partir de Galaxy e The Rain no finalzinho de 2016, me parte o coração até hoje reler as notícias sobre o que aconteceu com a EunB e a Rise, mal consigo imaginar o que as meninas e as famílias das duas sentiram quando isso aconteceu. Ainda ouço Galaxy e The Rain com bastante frequência, continuam sendo duas das mais belas músicas que o k-pop já ofereceu, outra que ainda ouço muito também é My Flower do álbum de Galaxy, belíssima também e representa muito bem todo o teor que o comeback trouxe.

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  2. Eu amei o post! Confesso que nunca fui atrás do Ladies Code, pois toda essa história delas me corta o coração e não sou das pessoas mais fortes “sentimentalmente” falando (e quando entrei pro k-pop já tinha rolado tudo).

    Mas depois de ler o post e de ouvir as músicas que você comentou, talvez eu até escute mais coisas delas, só para saber como são (:

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  3. o WordPress cortou o resto do comentário.

    Era para o projeto ser parecido com o do shinee. Com três músicas contando o luto a tentativa de seguir e celebrando a vida

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  4. Eu entendo bem o que você falou no começo do post (mas discordo do rolê da Jimin e da Mina, cada um tem seu jeito de ver coisas né…) e ver este momento foi triste. Eu confesso que apenas com o lançamento de Galaxy eu conheci a história do Ladies’ Code (2014 e 2015 foram os anos que eu me afastei do k-pop muito por conta de toda a polêmica envolvendo a Bom no 2NE1) e sinceramente, é muito triste ver que desde então, ocorre uma tragédia… 2017 foi o Jonghyun (inclusive a versão orquestral da música dele eu não consegui ter forças pra ouvir ainda), 2018 foi o líder dos nugus 100% e, ano passado, foi a Sulli e a Hara…
    Eu achava que a Polaris tinha sido uma das únicas empresas gerenciou bem e deu tempo pras integrantes se recuperarem, até que saiu a notícia semana passada que elas NUNCA RECEBERAM UM ÚNICO SALÁRIO nos sete anos de empresa. Isto é muito triste sério. Deixa toda a situação ainda mais triste.
    Enfim, foi muito bom relembrar (ainda mais agora)

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