Lovelyz tenta se reposicionar no K-Pop com a ótima “Obliviate”, mas talvez já seja tarde demais

Lovelyz é um caso interessante de grupo que, de certa forma, viveu seu auge cedo demais e jamais conseguiu retornar a ele em tempos seguintes. Debutando em 2014, mas se aproveitando também de uma “nova onda virginal” que começava a esquentar em 2015 com outros dois acts surgindo nessa trinca, o GFRIEND e o Oh My Girl, elas foram as primeiras a explodirem nisso, involuindo a partir daí, enquanto suas colegas foram progredindo inversamente.

Meia década se passou desde então, o cenário do K-Pop mudou drasticamente, com o Lovelyz não conseguindo acompanhá-lo corretamente, cometendo alguns erros nesse percalço. Mas falo mais disso depois da quebra de página. Ouçam Obliviate:

Desses três girlgroups citados da terrível onda white aegyo pueril bizarra de anos atrás, acho a história do Lovelyz a mais curiosa. Elas foram uma das primeiras a enxergarem que as movimentações de mercado estavam mudando a partir do estrondoso sucesso do Apink executando esse conceito infantilizado de imagem e som, elevando isso a uma patamar ainda mais “aprofundado” em seus releases (o MV de Candy Jelly Love deve ser prato cheio para fãs velhotes esquisitos, juntando meninas vestidas de colegiais, agindo como crianças, mas cantando uma porção de duplos sentidos). E elas acertaram, visto não só vários e vários outros grupos nessa mesma pegada surgirem no ano seguinte, como outros que não a seguiam desde o início decidindo investir nela para faturar um troco (Twice debutou fazendo sexy concept, Sonamoo fazendo girl crush).

aegyo virou febre e o Lovelyz foi um dos percussores disso, com “Ah-Choo” vendendo MILHÕES de cópias. E isso ajudou elas a montar uma base de fãs ligeiramente fiel, capaz de sustentá-las mesmo sem conseguirem, posteriormente, continuarem furando a bolha como outrora. Base essa que lotava shows e permitia que elas soltassem produtos super específicos, como uma coletânea orquestral dos instrumentais delas. Mas isso não lhes tirava do patamar de one hit wonders. Em paralelo, GFRIEND, por exemplo, se tornou (por um breve período de tempo) um dos grupinhos da nação. E o Oh My Girl, com bastante investimento e um punhado de sorte, calhou de ir subindo a escadinha da fama, até se cravar como um dos grandes jogadores do K-Pop feminino atual.

Isso posto, devo dizer que, nesse trio exemplificado, o Lovelyz sempre foi o meu predileto. Pelo motivo mais básico de todos: suas músicas. A parceria da Woollim com produtores como Sweetune, OnePiece, MonoTree, junto dos vídeos bolados pelos DigiPedi, construiu para elas um “selo” de qualidade que tornava cada comeback do grupo algo aguardável, com hype alto. É claro que eu ter uma certa paixão pelo synthpop europeu do final dos anos 70 utilizado como molde para seus singles contribuiu para isso.

Como o icônico lovelinu que sou, enxergo que o maior problema com o grupo de alguns anos para cá foi sua evolução conceitual mal feita. Sonoramente, ainda que tenham continuado investindo nessa fatia eletrônica retrô, suas canções foram ficando cada vez mais inespecíficas e parecidas com o que outros girlgroups faziam ao mesmo tempo, sem aquela aura esquisita e distorcida das faixas entre 2014 e 2017. Lost N Found, por exemplo, não é ruim, mas poderia ter sido feita por um Cosmic Girls da vida, sem qualquer alteração. Já esteticamente, elas acabaram se perdendo ao não “crescerem naturalmente” com os anos.

O que nos leva ao Queendom, onde essa mudança de imagem soou… artificial.

A apresentação de “Ah-Choo” é o que de melhor ilustra a trajetória do grupo na competição, com elas tentando vender um sexy concept apoiadas na música que as projetou como um grupo fofinho para a nação coreana. Na etapa seguinte, em vez de rearranjarem uma música de outras das competidoras a sua maneira, decidiram emular Brown Eyed Girls se dar a “Sixth Sense” nada delas, tampouco conseguindo arranhar o que Gain e as outras fizeram originalmente.

Forçado.

Enquanto isso, suas “rivais” contemporâneas, também partidas do aegyo, também com o plano de modificarem sua imagem ao público, faziam isso:

Chegando a isso:

O Oh My Girl, ancorado num planejamento melhor, conseguiu o que o Lovelyz parecia buscar, mas com uma aparência mais orgânica. E deu certo, não só em audiência, mas sonoramente. À longo prazo, acredito que, das participantes do Queendom, o Oh My Girl foi o que mais ganhou e o Lovelyz o que mais perdeu. O que até justifica a demora da Woollim para esse comeback, trabalhando algumas das meninas (sem sucesso, ahn) como solistas em áreas fora do aegyo, enfim chegando aqui, em “Obliviate”.

Com isso tudo acima colocado, tenho que dizer que “Obliviate” é, finalmente, um bom posicionamento do Lovelyz no K-Pop atual. Elas ainda mantêm o ar classudo de antigamente em seus visuais, optando por uma sonoridade eletrônica que já não é mais tão inédita na cena (GWSN e outros já fizeram parecido), mas satisfaz corretamente (eu odiaria, por exemplo, se elas emulassem BLACKPINK com urban try-hard). Gosto bastante do refrão, dos gemidões que vem em seguida. A faixa como um todo é muito bacana nessa vertente ballroom noventista que fica bem para girlgroups. E a parte mais para o final na coreografia, com elas rodando a perna no chão, é um dos momentos mais sensuais de 2020.

Pra mim, é um bom ponto de partida para o Lovelyz como um “novo grupo”. Não chega a salvar vidas, sequer é cogitável como SOTY, mas é bastante curtível num geral, abrindo grande possibilidades para o futuro. Provavelmente, já é tarde demais para recomeçar, mas isso só o tempo dirá.

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8 comentários em “Lovelyz tenta se reposicionar no K-Pop com a ótima “Obliviate”, mas talvez já seja tarde demais

  1. Da gosto de ler um texto bem redigido assim, fazendo um aparato geral da história do grupo e trazendo referências para justificar sua opinião. Enfim, não tem o que discordar de tudo que foi posto.

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  2. Fico exatamente com a mesma impressão. Excelente comeback, tempo errado! Infelizmente, sinto que o disband vira logo e fico muito triste com isso. Elas são um dos meu trecos favoritos do K-Pop, com algumas das melhores b-sides que já ouvi na vida (nada biased, quem discorda tá errado). Pelo menos, se o disband vier a ocorrer, acredito que será um final feliz pois o saldo delas é beeeeeeem positivo, pelo menos comigo…

    Curtido por 1 pessoa

  3. Lembrando que Amáveiz é um grupo que debutou em 2014, então há grandes chances de disbandarem no ano que vem (7 anos, lindjos). Mas é uma pena que esse amadurecimento de imagem demorou TANTO pra vir, sendo que poderia ter acontecido entre 2017 e 2018. Mas também não podemos esperar muito de uma empresa que parou de usar as demos do Sweetune, né? Um beijo pro Infinite

    Curtido por 2 pessoas

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