Guia prático para se aventurar no J-Pop #01: as J-Divas! (parte 1 de 2)

Estar há tanto tempo acompanhando o pop asiático jpg me permitiu observar como o cenário de consumo da música vinda lá do outro lado do globo mudou com os últimos anos. Enquanto na década de 2000, que foi quando comecei a usar a internet e consumir trecos vindos de asiáticos, e no começo da de 2010, era bastante comum que o Japão fosse o “centro cultural”, com a galera, principalmente fãs de animes, iniciando suas aventuras por ali e, então, conhecessem o que rola na Coreia do Sul, China e etc. (parte do K-Pop ter bombado aqui no Brasil é culpa dos otakus, tinha até “sala de K-Pop” em eventinhos como Anime Friends e suas variações), hoje as coisas são… diferentes.

Muito pelo investimento dos coreanos, muito também pela falta de investimento dos japoneses, hoje o K-Pop é que é o momento. Arrisco a dizer até que, sempre que alguém fala de música asiática, o que vem à cabeça do ouvinte ou leitor, automaticamente, é o pop idol da Coreia do Sul. O que não é um problema de verdade, mas sinto que é uma pena o J-Pop não ter acompanhado isso em grandeza. Tanto que a diferença de views aqui no blog entre postagens de um e outro é IMENSA.

Como sou um velho chato que gosto de panfletar faves mesmo que ninguém se importe, e como sei que a maioria de vocês, leitores, são uns preguiçosos e não iriam buscar muitos desses nomes por conta própria, resolvi unir o útil ao agradável: a partir de hoje, iniciarei um guia prático (ênfase no prático) sobre como começar a se aventurar pelo J-Pop. Ele todo será dividido em diferentes categorias e compilará o grosso de artistas que eu mais acompanho e escrevo por aqui (geralmente em playlists, tops e raspas no tacho), indicando algumas faixas principais e dando uma bio do que vocês podem esperar deles.

A primeira categoria selecionada foi a de J-Divas!!1! O nome é autoexplicativo: são cantoras solo que focam suas carreiras no pop para as massas e segue à risca todo aquele arquétipo que mesmo nomes ocidentais nos entregam, dividindo-se em eras, onde vários singles se juntam num álbum, aí vem as turnês e o ciclo se repete ad infinitum. Só que a lista acabou ficando tão grande que resolvi dividi-la em duas partes, uma pra hoje, outra para… breve. -q

A grande maioria das que estão listadas aqui têm seus repertórios disponíveis em plataformas de streaming, como Spotify, Deezer, Apple Music e no youtubão das massas. É só ir atrás das que mais despertarem seus interesses. Sem mais delongas, em ordem alfabética, vamos lá…

AI

A AI é uma cantora/rapper nipo-americana de 39 anos que está na ativa desde o ano de 2000, sempre transitando entre o pop e aquele R&B-urban-contemporâneo, como se fosse uma Tinashe ou Rihanna em comparação (embora as músicas sejam bem distintas). Meu trabalho preferido dela é o “WAYtoYO” (em tradução livre, “japonês X ocidental”), de 2017, um álbum duplo em que ela se divide, tal como diz o título, em dois lados: o primeiro, utilizando influências tradicionais japonesas nos instrumentais; o segundo, mais alinhado com o que era grande nas rádios estadunidenses tempos atrás.

Mas se quiserem um gostinho mais rápido disso, podem conferir também a colaboração dela com a Namie Amuro abaixo, “Fake”, que vai mais ou menos nessa mesma pegada, mas explorando o que de melhor cada uma poderia entregar em tal momento.

Airi Suziki

Entrarei nisso quando for hora, mas tem esse selo lá no Japão, o Hello! Project, que gerencia uma porção de grupos idols por lá. Um deles foi o C-ute, que era formado por… gostosonas! Dele, surgiu a Airi Suzuki, que debutou solo oficialmente em 2018, já lançou dois LPs e alguns singles, onde ela serve bem o estereótipo de grande j-diva, cantando de forma intensa, dançando e apelando para diferentes sonoridades.

Minhas duas faixas prediletas dela são essas abaixo e os álbuns também valem a conferida, pois contam com ainda outras maravilhas que grudam na cabeça. Se não me engano, não dá para encontrar eles nos spotifys da vida (a Up-Front Promotion é uma das empresas nipônicas mais fechadas para promoções internacionais), mas se procurar pra baixar dá pra achar com facilidade.

Anna Tsuchiya

Essa aqui anda meio sumida, não lança nada há mais de meia década, mas é uma das que valem dar uma conferida em tudo o que lançou antes. A pegada da Anna é bem rockish, ela não traz muitas variações de sonoridade no catálogo, então pode ser que os fãs de pancadões dance não curtam muito. Mas se bater cabeça for sua especialidade, pode mergulhar sem medo.

Meus dois álbuns preferidos dela são a coletânea reunindo as faixas que ela fez para a OST do anime “Nana”, em 2007, e o “Rule”, de 2010. Ambos com o puro suco do j-rock/pop, trazendo porrada atrás de porrada, mas sempre com aquela afinação radiofônica que torna tudo mais palatável ao grande público. E a voz dela, ooh, a voz dela…

Ayumi Hamasaki

Quem acompanha a blogosfera fundo de quintal há mais tempo já sabe que a Ayu é uma grande queridinha entre cacuras do meu tempo. Isso se dá pela discografia muito bacana dela, trazendo álbuns legais demais desde os anos 90, que conseguem se alinhar com o que está em alta nas respectivas épocas em que são lançados, mas também trazendo a aura (cafona) característica da Ayu como uma assinatura de que aquele é um release dela e ponto final. Não é a toa que ela foi um dos maiores nomes do Japão na era Heisei.

Os melhores álbuns, em ordem de preferência, são o “Duty” (2000), o “Next Level” (2009), o “(miss)understood” (2006), o “Rock’N’Roll Circus” (2010) e o mais recente “M(A)DE IN JAPAN” (2016). Mas uma cacetada de singles espaçados de outros álbuns dela também são muito legais. Então, se divirtam bastante caçando suas próprias favoritas daqui em diante.

Beverly

Começando uma sequência involuntária de cantoras vindas de outros países, mas que foram abraçadas pelo público no Japão, temos a Beverly e seu imenso vozeirão, que veio das Filipinas e assinou com a Avex em 2016, apostando nesses números divosos onde ela pode soltar o vocal à vontade e nos agraciar de tal maneira.

Vale dar uma olhada na discografia toda dela, que conta com três álbuns, um mini e uma porrada de singles já. Mas as minhas duas prediletas são essas abaixo: “Precious”, de 2019, uma gracinha disco que parece vinda diretamente do repertório da Donna Summer, e “I Need Your Love”, que é como se a Beyoncé em início de carreira e algum responsável por qualquer OST de anime shounen da temporada se encontrassem.

BoA

“Mas Lunei, seu tosco que abandonou o Twitter e não dá mais likes nos meus posts lacrativos, a BoA é coreanaaaa!”, disse você mentalmente nesse momento. E, é, a BoA é mesmo coreana, mas o que muito do público atual não sabe (além de quem é a BoA num geral, risos) é que ela foi um caso de sucesso da SM Entertainment com a Avex no começo dos anos 2000, sendo uma das primeiras “importações” do K-Pop na onda hallyu para a ilha vizinha, vendendo como água por lá e fazendo da BoA uma espécie de Ritchie na indústria fonográfica nipônica. E como as tecnologias de gravação, masterização, etc., do Japão, nessa época, era muito mais avançadas que as da Coreia do Sul, mesmo os singles que eram reaproveitamentos de sucessos coreanos dela, mas traduzidos pro japonês, soavam muito melhores aos ouvidos.

Dessa primeira década, acho o “Love & Honesty”, de 2004, o mais legal em todos (“Rock With You” abaixo, presente nele, é o melhor single dela por lá nos anos 2000). Já dessa última década, eu AMO o “Watashi Kono Mama de Ii no Kana”, de 2018, que traz uma porrada de jams espetaculares que eu me deleitei em colocar o máximo deles no topzão de 2018, disponível aqui no blog.

Chanmina

Dessa lista, acho que a Chanmina é a mais nova na indústria, mas o curto repertório dela é muito aproveitável. Na real, ela é uma sul-coreana que, em vez de tentar a vida como idol em alguma empresa e eventualmente debutar (ou não, imagina se fosse na YG) num girlgroup ou como solista, partiu pro Japão, assinou com uma gravadora pequena, fez barulho entre artistas mais alternativos, aí se mudou para a Warner em 2019, que tem conseguido atrair alguma atenção para ela (embora hitar hitar mesmo ela ainda não tenha conseguido).

Eu gosto muito que a Chanmina estabeleceu para si uma estética sonora bem marcante, com sua interpretação vocal sempre soando bastante melancólica, independente do instrumental que ela escolha para colocar isso. Vai desde pops mais orgânicos até traps, dances, influências latinas, mais teatrais… é tudo diferente, mas tipicamente Chanmina.

Che’Nelle

Ainda nisso de cantoras de outras nacionalidades, mas que são abraçadas pelo público japonês, a Che’Nelle é da Malásia e divide suas atenções entre releases focados no público internacional e releases com apelo para o público nipônico.

Eu meio que cago para a discografia dela pré-2017, então não tenho muito o que falar de seus primeiros anos de carreira. Mas em 2017 ela soltou um par de trabalhos que ainda são muito fortes aqui em casa, o LP “Destiny”, no Japão, e sua versão internacional, o EP “Calm Before The Storm”, com algumas das músicas dele em inglês. As duas versões são excelentes, destruidoras, incríveis e todas os demais adjetivos no estilo. A voz da Che’Nelle é lindíssima e ela consegue tirar o melhor de cada demo que a coloca. Uma espécie de Christina Aguilera oriental, em talento e bom gosto.

Daoko

A Daoko vocês já devem conhecer um pouco mais, pois eu vivo panfletando cada um dos lançamentos dela por aqui, até coloquei duas faixas de seu último LP no top 10 do ano passado. A grande maioria do repertório dela é composto por maravilhas eletrônicas que, ou caminham pelo mais alternativo e esquisito, ou são delicinhas acessíveis que estariam em alguma balada cool japonesa.

Ela tem um tipo de fetiche estranho com a cor azul, que quase sempre marca seus videoclipes, capas de singles, discos e tudo mais. Recentemente, ela deu uma estourada por encabeçar a trilha sonora do filme “Fireworks” com uma baladinha emotiva, mas nem mesmo esse hit que não tem nada a ver com sua assinatura fez com que ela mudasse sua pegada original. Sugiro, antes de pegar os CDs, vocês irem no canal dela no YouTube, assistirem os videoclipes amalucados, aí então irem desbravando a discografia no serviço de streaming mais próximo.

Dream Ami

Quando eu chegar na parte desse guia onde explico os grupos da LDH/Exile Tribe/Rythym Zone, me aprofundarei mais no Dream, que era um dos grupos que formava o E-Girls antes de toda a pataquada lá de rebranding, mas dentro dele tinha a “Dream” Ami (os artistas desse selo costumam colocar o nome do grupo a qual fazem parte como “sobrenome” em seu stage name), que meio que chamava mais atenção que as outras por ter o cabelo pintado de loiro e possuir um timbre vocal de personagem de desenho animado.

Essa popularidade foi o suficiente para que ela conseguisse sair solo em 2015, conseguindo manter uma carreira mais longeva que suas colegas até então. As músicas dela são bem gosto adquirido. É tudo bem fofo, inocente, confortável, adocicado, mas de um jeito que envolve o ouvinte bem bacana de acompanhar. Pra mim, é tudo o que a Kana Nishino (que não aparecerá aqui) tenta ser, mas de um jeito que dá vontade de repetir ao fim.

Por hoje foi isso. Em breve, trago a segunda metade.

14 comentários em “Guia prático para se aventurar no J-Pop #01: as J-Divas! (parte 1 de 2)

  1. Ótima ideia e ótimo post.
    Eu sou uma dessas pessoas que têm preguiça e às vezes um receio de procurar e não curtir.
    De j-pop, eu tinha contato só com as openings de animes que eu curtia, só que a maioria não é disponibilizada no Spotify.
    Eu conhecia a Anna por causa de Wonder Woman que eu AMO, e também por uma música trilha de uma animação de Resident Evil que eu ACHO que é ela que canta.
    Dream Ami tem uma música que eu curto muito também, acho que um feat com tofubeats (?), mas nunca encontrei no Spotify também.
    Enfim, meu maior contato mesmo é com E-Girls, só que eu não faço a menor ideia de quem são as meninas, nem como o grupo funcionava. Quando eu tava a fim, descobri que elas iam disbandar.
    Esse quadro vai ser muito útil pra mim.

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  2. Ainda vou reservar um tempo pra ler com mais atenção, esse post era tudo que eu precisava. Sempre quis entender um pouco do jpop.
    Até onde li, curti muito “escape” da Airi (já tinha visto em outros posts do blog), o clipe é um otimo complemento (assisti 3 vezes seguidas, Airi divonica).

    Vou mergulhar nesse mundinho, pq a jornada única no kpop as vezes é pacata (e bem repetitiva. O que não é, né?)

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  3. eu era muito ativa no jpop entre 2008/2012, mas depois que resolvi fazer o blog e voltar a comentar sobre, eu me perdi completamente. agora mesmo to ouvindo os trecos japoneses da boa pra ver o que eu perdi nesse meio tempo.

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  4. Tem certeza que a divisão da lista de divas do j-pop é só em duas partes? Porque só das quatro divas mais panfletadas na blogosfera, três ainda nem apareceram…

    Mas enfim, concordo que o j-pop merece muito mais reconhecimento internacional do que tem. Mas tecnicamente, a culpa é praticamente do próprio mercado de j-pop, que não parece fazer questão nenhuma de alcançar outros territórios (tirando um ou outro caso, como os álbuns em inglês que a Utada lançou nos EUA e que floparam). Não sei se é verdade, mas li certa vez que o mercado fonográfico japonês tem um consumo interno muito forte, então ele se sustenta bem sozinho, enquanto o mercado sul-coreano só alcança lucros parecidos quando “exporta” músicas pra outros países.

    Quanto às cantoras dessa lista, fico na dúvida sobre quem é mais cafona: Ayu ou Dream Ami. Por sinal, faltou comentar que a Ayu já lançou tantos álbuns (incluindo álbuns de remixes, álbuns de remixes DOS REMIXES, coletâneas de sucessos, coletâneas de fracassos que a avex finge que foram sucessos, e por aí vai) que provavelmente nem ela deve saber listar toda a discografia dela…

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    1. Koda, Namie e Utada aparecem na próxima parte mesmo, junto com mais umas sete ou oito (ainda não decidi). Até daria para fazer uma lista bem maior, em mais partes, mas achei melhor colocar só as que mais ouço, ou eu não daria conta. =P

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      1. Na torcida pela Tomoko Kawase ser uma delas (lembrando que enquanto Lady Gaga fez sucesso criando um alter ego pra lançar sua carreira musical, antes dela a Tommy já tinha criado DOIS).

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  5. Que post PERFEITO, sério! Vai e vem um desejo meu de aprender e conhecer mais sobre o pop japonês num geral, mas sempre me atenho a coisas que já conheço (BED.IN, FEMM, Wednesday Campanella, Utada, Namie e por aí vai…). Muito legal esta sua proposta, amei de paixão ❤

    E é tanta música legal em tantos estilos diferentes que nem sei a discografia de quem começar a cavucar primeiro xD

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  6. Só uma correção : a Chanmina é japonesa,nascida e crescida no Japão. A mãe dela que é coreana(e o pai é japonês),mas a nacionalidade dela é japonesa mesmo.

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  7. Meu deus esse post tá incrível! Continua com outras partes, por favor, tento acompanhar o jpop há bastante tempo, mas acabo ficando no nicho AVEX/H!P (inclusive obrigada por meter a Airi no meio, ela é incrível pra cacete)

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