Guarnições #04: o karma da borboleta, o beijo francês e a ponte aérea dos japoneses

“Guarnições” é um termo almofadinha da gastronomia para os famigerados e adoráveis acompanhamentos dos pratos: não são o principal do consumo, não é por eles que o dinheiro é colocado, mas caso bem montados, acabam fazendo toda a diferença na degustação final. No mundo do asian pop, isso se reflete nas album tracks e b-sides de lançamentos.

Nessa coluna, a proposta é, sem muito critério além de “eu gostar”, panfletar algumas dessas faixas que não foram trabalhadas como single ou title, mas que seguem valendo a audição conforme os anos foram passando. Essa semana, com faixa japonesa de act coreano, faixa de act coreano em coreano e duas não-tentativas de japoneses nos Estados Unidos…

Girls’ Generation – Karma Butterfly (2013)

Das discussões inúteis de dentro do pop asiático, uma das minhas favoritas é a sobre o embate entre os repertórios coreano e japonês do Girls’ Generation. Há quem defenda cada um dos lados, declarando seu amor e a atestando a superioridade de tais lançamentos, por quaisquer motivos. Mas, no fim, fico com a explicação de que as soshis eram um grupo bem acima da média e conseguiram entregar bops para as diferentes nacionalidades que apostavam.

Isso posto, o “Love & Peace”, de 2013, ainda é o meu álbum predileto delas, servindo uma tracklist perfeita de delicinhas bubblegum pop que, por mais que fossem bem em linha com o que qualquer act ocidental teen soltasse à época (honestamente, quase tudo poderia ter sido gravado pela Selena Gomez e lançado no também ótimo “Stars Dance” daquele mesmo ano), ainda me satisfazem de modo incansável. Nele, “Karma Butterfly” é uma das favoritas do fãs (me incluo nessa estatística aí), nos mergulhando num electropop de refrão divino, instrumental robótico-espacial extraordinário e fazendo valer cada segundo como uma experiência catártica na pista de dança.

HyunA – French Kiss (2014)

Vi uma galera se surpreendendo com a HyunA entregando album tracks tão fortes quanto as titles (no caso de “I’m Not Cool”, até melhores) nesse comeback, mas pra mim isso não foi surpresa. A real é que ela, desde muito tempo atrás, tem um bom dedo para selecionar as músicas que comporão seus releases. Imagino que isso venha de algum tipo de competição interna entre os produtores/compositores desde a época da Cube, que deviam separar alguns de seus maiores bops disponíveis a fim de disputar qual deles seria o single da vez.

Das várias tracks dos vários minis ótimos dela, uma das mais bacanas é “French Kiss”, do “A Talk”, que é quase tão boa quanto a melô da bundinha do macaco, mas numa proposta menos zoeira. Basicamente, a letra safadíssima traz a HyunA falando que já não se aguenta mais de vontade e quer que o cara pegue ela logo. O plus é o instrumental totalmente baseado naquele pop/urban cheio de batuques que o Timbaland costumava produzir para Justin Timberlake, Nelly Furtado e mais uma galera nos anos 2000. Uma das minhas músicas favoritas de 2014, hein.

Utada – On And On (2009)

Um fato que nós da fanbase da Utada Hikaru adoramos esconder entre nós é que ela tentou forte acontecer no mercado fonográfico norte-americano, mudando seu stage name para só “Utada” e lançando dois álbuns totalmente em inglês, um em 2004, o PÉSSIMO “Exodus”, e outro em 2009, o ótimo “This Is the One”, que foram grandes sucessos… no Japão, mas ninguém se importou de verdade fora dele (sério, o “This Is the One” vendeu menos de 20 mil cópias internacionalmente, que vexame, não é a toa ela ter se aposentado logo em seguida).

Mas esse segundo álbum é realmente legal, com um monte de pérolas daquele híbrido de R&B com pop eletrônico do final dos anos 2000 produzidas pelo Stargate e mais uma galera que trabalhava com a-lists dessa época. Se for pra chutar um motivo pro flop, diria que foi pela escolha de singles. A tracklists trazia, ao menos, umas seis possibilidades melhores do que os que foram usados. “One And One”, por exemplo, é uma joia. Safada como a Utada nunca foi no Japão, ela solta um monte de linhas bem ousadas, dizendo que o cara, seja hétero ou gay, deve se jogar e fazer a noite valer. Um clássico pouco comentado de seu catálogo.

One Ok Rock e Avril Lavigne – Listen (2017)

Ainda na seara de artistas japoneses tentando o mercado norte-americano, em 2017, o One Ok Rock lançou duas versões de um mesmo álbum, o “Ambitions”. Uma lá no Japão, com a gravadora deles de lá, um enorme sucesso em vendas. A outra, com mais ou menos a mesma tracklist, e com as músicas todas cantadas em inglês, pelo Fueled By Ramen (selo com o Paramore, Panic! At The Disco, Twenty One Pilots, dentre outros), que não vendeu lá essas coisas, mas também não foi o maior flop de todos os tempos.

Um caso interessante dessa época foi a música “Listen”. Na versão ocidental era só um baladão cantado pelo Taka, bonitinho e em linha com as faixas mais emotivas da banda num geral. Mas, curiosamente, na versão japonesa do LP (e só nela), ela conta com a participação da Avril Lavigne, cuja irmã é casada com o baixista do grupo há anos. O que me faz pensar: será que a Avril tá tão em baixa assim nos EUA e, em contrapartida, tão em alta no Japão a ponto de rolar uma exclusiva com ela por lá? Vai saber.

Vitória do K-K-KAWAII! :V

2 comentários em “Guarnições #04: o karma da borboleta, o beijo francês e a ponte aérea dos japoneses

  1. Aaaaaah, Karma Butterfly, sabia que ia aparecer por aqui cedo ou tarde. Aliás, bem pontuado a questão da escolha de singles pela Utada, porque achei que para os lançamentos ocidentais, eles foram muito nada a ver…

    Não gosto disso de grupos do Oriente terem que lançar versões em inglês das próprias músicas para venderem aqui (o que na maioria das vezes não dá certo, porque quem já gosta, gosta também por causa da língua, e quem não gosta não liga mesmo, muito difícil atingir o grande público num tiro desses – no caso do One Ok Rock, mais difícil ainda, considerando que há no mínimo uns 10 anos rock não faz o sucesso avassalador que costumava fazer).

    Curtido por 2 pessoas

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