Time Machine: Koda Kumi, “Crazy 4 U” e o nascimento do ero-kakkoii (2004)

Ano passado, a Koda Kumi comemorou seus 20 anos de carreira dentro do J-Pop. Para isso, ele disponibilizou em seu canal de YouTube todos os videoclipes que ela soltou, inteiros e em qualidade alta, além de, ao finzinho de 2020, ter vindo com seu melhor lançamento em tempos, os EPs “Angel” e “Monster”, que angariaram algumas posições no último top 100 aqui do blog com suas faixas principais.

Inicialmente, eu havia imaginado um rankings com as minhas músicas preferidas dela lá por dezembro, mas as ocupações de fim de ano me fizeram adiar isso. Então, já que estou atrasado mesmo na pauta, decidi expandir minhas comemorações particulares dela e elaborar uma sequência de Time Machines, destacando não exatamente suas melhores canções em todos os tempos, mas pontuando quais, em minha opinião, foram as mais importantes em sua trajetória. Dividida em cinco partes, essa série começa agora com Crazy 4 U

Antes de tudo, uma pequena introdução e localização na linha do tempo. A Koda Kumi debutou como uma idol/cantora pop pela avex em dezembro de 2000, aos 18 anos, com o single Take Back. A estreia chamou atenção à época, mas seu sucesso não foi tão estrondoso quanto o esperado, conseguindo reunir números competentes em seus próximos singles e em seu primeiro full album, “Affection”, lançado em março de 2002. Em todo esse período, ela não foi exatamente desastrosa em vendas, mas digamos que, prum cenário de virada de década, onde outras j-divas com o mesmo investimento, como a Ayumi, a Namie, a Utada e a BoA, entrando na casa dos milhões em vendas a cada release (no caso da Namie, tendo seu auge no fim dos anos 90, mas era algo a se considerar), sair com um pouco mais de 100 mil cópias em um peak de #12 era algo… modesto para essa primeira era da Koda.

Mas as coisas já começaram a melhorar logo em seguida, com o single Real Emotion, lançado como tema principal do jogo “Final Fantasy X-2”, em 2003, que angariou um pouco mais de 280 mil cópias em vendas e conquistou o primeiro pódio da Koda na parada da Oricon, um peak de #3. “Real Emotion” foi o primeiro sucesso real dela, que ajudou a conquistar a atenção nacional do público médio para a Koda como uma artistas e, vá lá, deveria ser o primeiro release a ser abordado aqui na coluna. O problema é que eu acho “Real Emotion” um saco e não teria paciência para elaborar muito parágrafos sobre ela, então só fiquem aí com o fato dela ter sido a responsável pela “primeira onda” na carreira da Koda Kumi.

Isso dito, acho sua “segunda onda” bem mais interessante. E ela começa, justamente, com “Crazy 4 U”.

Usando esse espaço inicial aqui, tenho que dizer que AMO essa música e esse comeback como um tudo. “Crazy 4 U” é não só um puta comming of age ceremony, como um bopzão delicioso demais e que não envelheceu nada. Adoro o jeito como a produção mistura conceitos sonoros tipicamente japoneses, que bandas de ska ou mais inspiradas em estilos tradicionais fazem muito bem (inclusive em aberturas de animes), com ideias que eram bem fortes no pop internacional da época. É um encontro de mundos que a Koda soube vender muito bem, empregando um vocal que, ora soa mais “clássico” e empostado, ora mais provocativo, sexy. E com o videoclipe safadíssimo (ou apresentações ao vivo assim, com ela rebolando gostoso com o mínimo de roupas), tudo fica ainda melhor.

Contudo, voltemos à timeline. Nesse meio tempo pós-debut, ela soltou ainda outros dois álbuns, “Grown Into One” (2003) e “Feel My Mind” (2004), que cobriram as eras de 2002 e 2003 (aah, entendam algo, nessa época, e hoje ainda, era bem comum no Japão que os artistas lançassem uma porção de singles durante o ano e, nos primeiros anos de ano seguinte, soltassem um LP que compilassem esses singlesb-sides, adicionando ainda outras inéditas, então, no resto do ano, recomeçassem isso, numa outra era de singles que resultaria num outro álbum).

O grande single desse terceiro álbum foi “Crazy 4 U”, que representava uma mudança completa na imagem da Koda até então. Se antes ela era considerada uma cantora mais normal, ordinária, sem qualquer diferencial que a destacasse entre as demais concorrentes, foi a partir de “Crazy 4 U” que ela tornou-se uma grande representante do estilo “ero-kakkoii” (ou “ero-kawaii”, já vi esses dois termos sendo utilizados para se referir à mesma coisa). Com uma tradução livre, ero-kakkoi pode ser lido como “fodona da safadeza”. Fãs mais recentes de K-Pop, pueris e pudicos ao extremo, se chocariam com isso, mas há toda uma parcela de público que acha LEGAL sensualizar, que justamente pega esse fator mais sexual da equação da transição adolescente e tira disso uma narrativa cool.

E a Koda Kumi entendeu desde essa época que, além de cantar pra caralho (é só dar play no vídeo acima), ser simpática ao extremo e bastante talentosa, ela também era uma grande gostosa. E não teve vergonha nenhuma de mostrar isso e forçar essa história como um conceito dentro de seus lançamentos. É claro que isso não era realmente novidade na cena pop mundial. Nesse mesmo período, a Christina Aguilera já se esfregava no chuveirão em Dirrty e a Britney Spears já brincava com cobras em I’m a Slave 4 U (o “4 U” com certeza veio daí). Só que isso no cenário japonês calhou de ser transgressor e, vejam só, funcionar muito.

Não de imediato. Na Oricon, o peak foi só de #12 e o “Feel My Mind” mal passou das 150 mil cópias vendidas. Mas “Crazy 4 U” acabou se tornando uma canção assinatura da Koda daí em diante. E nessa, alguns outros releases utilizando o ero-kakkoii começaram a vir, e os números foram aumentando, e aumentando, e a popularidade dela crescendo mais e mais. Sucesso esse que se refletiu na sequência de 3 álbuns seguintes, que pegaram #1 na parada da Oricon em seus lançamentos: “Secret”, de 2005, com mais de 600 mil cópias, e as coletâneas “First Things” e “Second Session”, de 2005 e 2006 respectivamente, que bateram quase DUAS MILHÕES de cópias, todas apostando na sensualidade como um investimento:

File:Best ~First Things~CD+DVD.jpeg

Encarnando modelo gostosona e fashion para o photoshoot da primeira coletânea…

Encarnando dona de casa gostosona que gosta de tomar um leitinho em cima da pia no photoshoot da segunda coletânea…

“Crazy 4 U” não foi o maior sucesso da Koda Kumi em todos os tempos, mas é um de seus lançamentos mais importantes em todos os tempo, pois, a partir dele, ela conseguiu estabelecer para si uma imagem que lhe atraiu toda a tenção que necessitava para se tornar um dos pilares da indústria fonográfica japonesa dos ano 2000.

Nesse período que cobre esses dois bests of e seu quarto álbum de estúdio, outros megajams dela com o ero-kakkoii saíram. Dentre eles, estão algumas das minhas faixas favoritas do catálogo dela em todos os tempos. Antes de partir para sua “terceira onda”, vou comentar essa prediletas:

“Cutie Honey” é parte de um maxi single que ela soltou como trilha sonora da série live-action de mesmo nome, que adapta (livremente) o mangá clássico do autor Go Nagai. Provavelmente um dos troços mais lindos que a Koda já fez. Tudo bem que é uma recriação do tema clássico da série animada de décadas atrás, mas quase ninguém consegue elevar uma demo como a Koda. Tinha um vídeo dela cantando isso aqui DE CALCINHA na TV japonesa, mas derrubaram do YouTube. Pena.

“Hot Stuff”, onde ela encarna JLo, chama um rapper aí e mostra que é uma japonesa vinda diretamente do Bronxs. Em dado momento do videoclipe, que é uma batalha de dança, ela abaixa o zíper de um dos caras. ❤

“Feel” foi o primeiro single #1 dela. É um baladão R&B bonitinho, com algumas frases de duplo sentido e um vídeo que traz cenas ilustrando um relacionamento dela, incluindo takes dela com o cara debaixo das cobertas e outros dela posando sensualmente para uma sessão de fotos dele.

“DDD” é, provavelmente, minha música predileta dela. As guitarras, a letra recheada de momentos pegajosos, os vocais safados, o clipe com ela e as rappers do feat. comandando uma prisão sadomasoquista vestidas de índias. Pop heaven.

“Shake It Up”, outro hininho que mistura o estilo clássico japonês com influências ocidentais.

E “Candy”, 2000s ao extremo, misturando urban pop com elementos árabes.

Quais as favoritas de vocês?

4 comentários em “Time Machine: Koda Kumi, “Crazy 4 U” e o nascimento do ero-kakkoii (2004)

  1. Nessa fase ela estava com fogo nos zóio!

    Como esquecer dela rapando os prêmios no VMA da MTV japonesa e o show icônico dela, começando com uma balada de vestido longo entregando vocais… pra um minuto depois virem umas dançarinas que arrancam o vestido dela e Kumiko começa a rebolar com trajes sumários e termina simulando sexo oral num dançarino? Nem o show de UM MINUTO E MEIO que a Namie fez alguns anos depois foi mais marcante que isso.

    Uma música que eu gosto pra caramba dessa época dela é Trust You, que se não me engano nem foi single – mas ganhou videoclipe mesmo assim, com direito aos dançarinos vestidos de cafetões. Chique.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Aliás, como recordar é viver (…ou algo assim), fica abaixo a apresentação da Kumiko no VMA japonês:

      (ainda preciso achar o vídeo da apresentação de um minuto e meio da Namie, que deve ter deixado o público se perguntando se não era melhor ela nem ter ido se a “vontade” de cantar e dançar era tanta assim)

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s