Time Machine: Koda Kumi, Fergie, “That Ain’t Cool” e o líquido amniótico (2008)

Parcerias internacionais entre um act oriental e um act ocidental não são exatamente comuns. Talvez pela distância geográfica, ou pela notável diferença de consumo que os mercados fonográficos têm em comparação ao resto do globo, ou mesmo pela falta de interesse de ambas as partes, vai saber. Só sei que, quando um encontro de dois nomes fortes desses pontos cardiais distintos ocorre, isso é algo a ser comentado.

Principalmente quando são cantoras do naipe de Koda KumiFergie nos anos 2000. Porque ninguém mexe com Koda Kumi e Fergie nos anos 2000 e sai ileso. Nem mesmo o desgraçado que traiu elas com outra no meio de um estacionamento. Oh no no no, babe, no no no no, you can’t do this with Koda Kumi and Fergie at de 2000s, sweety. Cuz…

That.

Ain’t.

Cool.

*BOOOOOOOOOOOOOOOOOOOM*

O ano era 2008. Koda Kumi havia se tornado uma das cantoras mais populares do Japão e passado da casa do milhão em vendas com seu álbum, “Black Cherry”, e essa popularidade seguia forte, com ela colocando seu mais recente LP, “Kingdom” (que eu não gosto muito, me julguem), também em #1 na Oricon. Tudo parecia lindo e perfeito, mas as coisas meio que começariam a se enrolar logo logo. Contudo, deixarei isso mais para frente nesse post.

Do outro lado do oceano, uma outra cantora também vivia seu auge. Fergie, com seu primeiro álbum de estúdio, “The Dutches” (2006 também), era um dos nomes mais quentes do pop internacional em tal década. Cinco singles em top 5 na Hot 100 da Billboard, quase NOVE MILHÕES DE CÓPIAS do CD distribuídas mundialmente, o Black Eyed Peas em seu maior pico. Você, eu, a tia da padaria e quem mais do universo: todos queriam provar o quão fergalicious ela poderia ser…

Top 10 melhores músicas dos anos 2000. Quem discordar será eliminado com mais de 98% no próximo paredão…

Posto isso, Koda Kumi, que não era boba nem nada, deve ter dado um jeito de contatar o produtor Keith Harris na mesma época que ela estava trabalhando com o BEP pro álbum que eles lançariam em 2009, conseguiu com ele That Ain’t Cool e, de lambuja, ainda catou uma participação da Fergie na faixa, que foi lançada dentro do maxi single (à essa altura do campeonato, vocês já devem ter percebido que a Koda ADORA isso de singles enormes) “Moon”, contendo essa e mais outras duas músicas.

Eu VIVO por “That Ain’t Cool” e considero esse um dos trecos mais icônicos não só da Koda Kumi, mas do J-Pop dos anos 2000 num todo. Nessa época, eu já era um jovem internauta obcecado por tranqueiras musicais vindas do Japão e cheguei a acompanhar todo o burburinho causado por isso aqui em fóruns, comunidades de Orkut e sites especializados (inclusive, tenho quase certeza que foi aqui que conheci a Koda Kumi). Até hoje, ainda acho tudo que envolve esse lançamento impressionante, indo desde a música, maravilhosa, até o videoclipe, que é bom pra cacete.

O grande truque de “That Ain’t Cool” é o refrão, viciante como metanfetamina. Os somebody saw you in the parking lot, with that girl that you should talk, so now you tryna play me like a fool, that ain’t cool, that ain’t cool so são como o C10H15N penetrando no sistema nervoso, os versos ficam lá para sempre, não somem, é impossível se livrar. Não é a toa que a maior parte da música é coberta pela repetição do refrão, o que funciona bem demais. E isso deixa os versos cantados pela Koda e pela Fergie em suas respectivas linhas ainda mais deliciosos. Não sei se é por elas trazerem ele como spoker words, ou pela crocância da bobageira que elas falam (os versos da Koda são hilários), mas é tudo implacável.

Eu adoraria saber a história real por trás desse lançamento, porque a Fergie me parece MUITO comprometida nele. A parte mais alta da harmonia do refrão é dela, o primeiro conjunto de versos também, há várias trocas de figurinos e cenas diferentes (todas as que ela aparece com esse catsuit de couro são dignos de uma prece à Nossa Senhora da Vara Ereta), ela se deu ao trabalho de gravar material não só para uma, mas para duas versões do mesmo videoclipe, e ainda se juntou à Koda numa apresentação pra DVD da turnê que ela fez no ano seguinte:

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

Sei que o Will.I.Am é obcecado pelo oriente, que o Black Eyed Peas tem no Japão um público muito especial, mas não sabia que o investimento por lá era tão grande assim. Bom para nós, público da Koda, que conseguimos um dos materiais de promoção mais efetivos dela ao resto do globo desde a parceria com Final Fantasy lá anos atrás.

File:Moon (Koda Kumi)cd.jpeg

O “Moon” foi bem sucedido, atingindo peak de #2 na Oricon. Considerando as vendas físicas, foram mais de 140 mil cópias. No digital, foram mais de 750 mil downloads. Para quem havia manchado com força sua imagem meses antes, foi um lançamento e tanto. Falando nisso…

Começo do declínio: o drama do líquido amniótico

“Mas Lunei, seu ridículo que assinou o Prime Video e só usa o serviço pra assistir The Office o dia inteiro, como alguém que, outrora, tinha o Japão nas mãos acabou decaindo tanto em popularidade???” me pergunta você, leitor ávido por uma fofoca envolvendo divas do J-Pop (inclusive, parabéns pelo uso da palavra “outrora”). Lhe explicarei.

No fim de janeiro de 2008 (ou começo de fevereiro, depende da fonte, fiquei com preguiça de checar), num programa de rádio, a Koda contou sobre um episódio passado com uma das integrantes de sua staff. A garota havia se casado e a Koda quis saber o motivo dela ainda não ter tido filhos. Ela respondeu “tamo sem tempo, sua futriqueira”, aí Kodão, tal como uma tia que passa o dia replicando notícias recebidas no zap, respondeu “mas tu devia, sua velha, pois depois que a mulher faz 35 anos, o líquido amniótico dela fica uma merda”.

Tal informação, retirada de sabe-se lá onde, pegou MUITO mal para a Koda. Uma porção de veículos rebateu isso, várias declarações de especialistas de do público geral saíram a condenando, muita gente se sentiu ofendida, várias das marcas que haviam fechado com ela no auge do sucesso decidiram rescindir ou não renovar o contrato. O backlash foi tanto que a avex decidiu pausar todas as promoções do álbum “Kingdom” que ainda aconteceriam dali em diante. E a própria Koda precisou pedir desculpas publicamente.

A Koda ainda seria grande por mais algum tempo, mas, se avaliarmos a quantidade de vendas desse ponto em específico em diante, podemos compreender que os números só decaíram (enquanto, talvez para reparar o estrago, a quantidade de lançamentos diferentes, englobando não só singles e álbuns, mas coletâneas sazonais, de remixes e etc., foi aumentando).

O primeiro sinal rolou logo ao final dessa era, com o álbum “Trick” (que eu adoro) vindo ao mundo em 2009.

File:Trick cd 2dvd.jpg

O álbum até debutou em #1 na Oricon, mas com a menor vendagem da Koda Kumi em tempos (algo que se repetiria outras vezes com o passar dos anos e até viraria piada dentro do fandom, já que a mesma quebraria recordes de “sucessos fracassados” mais pra frente).

De qualquer forma, acho o “Trick” um LP de diva pop que vale muito a pena ser escutado. Ele explora vários lados da Koda numa mesma tracklist e traz algumas das músicas que se tornariam fan favorites em seu repertório. Destacarei algumas:

“Taboo” disputa com “DDD” o posto de minha predileta da Koda em todos os tempos. É um dance-urban esquisito, meio macabro, mas com uma letra fantástica sobre aceitar como normais coisas que são impostas como tabus pela sociedade mais conservadora. É relevante até hoje. Ajudou a tornar a Koda um grande ícone LGBT.

“Show Girl”, que é um dos melhores números retrôs dela. O refrão é puro bliss.

“Moon Crying”, outra herdada do “Moon”, um baladão bonitinho que ela consegue levar prum lado mais melancólico graças à performance vocal de quem fumou um maço de malboro minutos antes de cantar.

E um cover de “Venus”, que funcionou impressionantemente bem na voz dela.

E assim, terminamos a primeira década de carreira da Koda Kumi. No próximo post, falarei sobre a primeira metade dos anos 2010, quando as coisas despencaram de verdade em vendas e popularidade, mesmo com ela ainda lançando coisas realmente ótimas. Já na parte final, falarei quando ela, já no fundo do poço, desgraçou a própria discografia com uma sequência de lançamentos terríveis. Nos vemos lá.

7 comentários em “Time Machine: Koda Kumi, Fergie, “That Ain’t Cool” e o líquido amniótico (2008)

  1. That Ain’t Cool é muito legal mesmo! E realmente, era bastante incomum na época uma cantora asiática fazer parceria com uma cantora ocidental. Teve Blow My Whistle, da Utada com a Foxy Brown, que eu acho até melhor que That Ain’t Cool, mas as próprias Utada e Foxy nunca se interessaram em promover essa música, nem separadas e muito menos juntas…

    E interessante como Kumiko e Fergie gravaram juntas nos seus respectivos auges, e já faz anos que as duas estão no fundo do poço… no caso da Fergie até dá pra dizer que o sucesso durou um pouco mais, graças a I Got A Feeling dos Black Eyed Peas, mas a carreira solo dela depois do primeiro álbum foi um desastre.

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    1. (quanto à apresentação na turnê da Kumiko… olha, eu sei que estilos de cabelo entram e saem de moda de tempos em tempos, mas não lembro do cabelo estilo Chitãozinho & Xororó estar na moda nos anos 2000 não. Esse corte de cabelo da Kumiko tá MUITO RUIM)

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    1. Mas eu me impressiono de ter sido isso o que fez a Koda ser “cancelada” na época. Levando em conta o tanto de treco que poderia chocar o cidadão médio japonês que ela já tinha feito antes. Calhou dela cair por ignorância (dela) e não pelas atitudes mais transgressoras.

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  2. Eu conheci a moda pelo asianmixtape, e caramba como ela era relevante e lançava coisa boa na primeira década do terceiro milênio. Não sabia dessa dela com a firgie e muito top, pelo menos ela lança algo interessante uma vez ao ano, depois desse episódio. Nostalgia no auge aqui

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