Time Machine: quando os lados “velvet” e “red” se separaram em “Automatic” e “Ice Cream Cake” (2015)

O Red Velvet havia debutado em 2014 sob circunstâncias esquisitas. Em suma, ficou uma impressão feia de que a SM colocou a estreia do grupo para agir como cortina de fumaça para a saída da Sulli do f(x). E a fama de “grupo tapa buraco” se reforçou ainda depois naquele ano, quando a gravadora soltou o single Be Natural na mesma semana que foi noticiado que o Luhan, do EXO, tinha entrado com um processo para sair do grupo por “diferenças criativas” (Luhan era um dos membros chineses do lineup, que já havia perdido meses antes o Kris).

Mas as coisas pareciam mudar com virada do ano. E então, com um trabalho que não pareceu ser feito às pressas e com a adição da Yeri no lineup, em março de 2015 rolou o primeiro comeback “oficial” do Red Velvet com o mini-álbum “Ice Cream Cake”, que contou com o pré-release Automatic e, claro, com a title Ice Cream Cake

É legal olhar para esse comeback com o distanciamento de anos e ver o quão ele foi importante para a formação do Red Velvet como uma “ideia”. Eu genuinamente não acho que a SM tinha como propósito logo de cara dar duas facetas tão distintas às rookies dela e alimentar isso ao longo de anos. Minha tese é que o backlash por “Happiness” foi tão grande (a faixa vendeu quase meio milhões de cópias digitais, pois debut da SM, mas os comentários negativos, sobretudo no Japão por conta do clipe, vieram com força) que os produtores do grupo simplesmente não tinham ideia do que fazer com elas dali em diante. Então, optaram por atirar para lados diferentes e ver o que resultava disso. Um single mais espevitado em “Ice Cream Cake” e outro mais elegante em “Automatic”.

Então, calhou de, pela repetição de imagem e sonoridade quando comparados com os singles de 2014, os fãs e a mídia começarem a estipular que o Red Velvet tinha os lados “red”, de “Happiness” e “ICC”, e “velvet”, de “BN” e “Automatic”. Esse era um caminho interessante para um novo grupo e, vendo de agora, acabou seguido por outros rookies ali (tipo o Oh My Girl com “Cupid” e “Closer”, o BLACKPINK com “Boombayah” e “Whistle”, dentre outros).

Começando pelo “velvet”, a vertente mais soturna do grupo, que apostava em midtempos sensuais sombrias e conceituais (e depois foi prum lado mais urban com “Bad Boy”, “Psycho” e outras). “Automatic” é uma das minhas músicas preferidas desse ano. As integrantes colocam nela um vocal suspirado muito gostoso de ouvir, que casa perfeitamente com o instrumental R&B esquisito, gelado, meio chuvoso aos ouvidos. Há uma brincadeira com o minimalismo, onde os elementos do instrumental vão aparecendo e sumindo à medida que as harmonizações vocais delas se destacam. O refrão é lindíssimo e todo o pacote me captura duma forma hipnótica. Aquela bridge com a Wendy é atraente demais e faz a cama para o refrão final, onde rolam diferenciações nele que o deixam com cara de encerramento apoteótico.

Isso tudo se soma ao MV deslumbrante, sendo meio que o molde para o estilo de filmagem “que vai se grudando” que o Red Velvet usaria dali em diante e influenciaria outros grupos nessa. O take do carro, os giros de câmera, quando ela vem por cima. Várias dessas coisas seriam repetidas por essa mesma equipe de filmagem com outros acts, mas como foram usadas inicialmente com o Red Velvet, se tornaram o padrão que foi repetido. “Automatic” é uma das músicas mais lindas do repertório dos cinco bichos de pé do belzebu. E também um dos melhores capopes para apresentar para pessoas que não conhecem o capope (funcionou quando fiz isso com amigos mais chatos com música, pois “Automatic” é muito bem trabalhada e “adulta” em sua composição).

Já o “red” veio em “Ice Cream Cake”, o icônico farofão de duplo sentido delas e um imenso sucesso fonográfico na época. Todos os elementos que fariam do quinteto o treco mais bizarro do momento estavam lá: o instrumental maluco com algum elemento bizarro (nesse caso, a sirene de caminhão de sorvete), o MV esquisito delas loiras no deserto (acreditem, é o bastante para assustar), a interpretação aegyo tão exagerada que faz a volta e se torna perturbadora em vez de fofinha e por aí vai.

Lembro que achei “Ice Cream Cake” bem estranha num primeiro momento. Estranha até demais. Se me recordo corretamente do dia, acho que adquiri legalmente pela manhã o EP no site de vendas K2NBLOG, aí reclamei da faixa no Facebook ou algo assim. Depois, fui pra faculdade no final da tarde e ouvi umas trinta e cinco vezes no ônibus. Chegando lá, já tinha mudado de opinião. O conjunto todo é um estranho realmente legal. E a letra recheada de tiradas de duplo sentido é especial demais. Os “I scream, you scream, gimme that gimme that ice cream” ainda são icônicos demais.

Esse tipo de template musical onde os elementos malucos vão se sobrepondo até chegar num refrão eletrônico explosivo fez tanto sucesso que uma porção de acts replicaram depois (vejam o que falei sobre o debut do LIGHTSUM). E influenciou gente até fora da Coreia do Sul. A Bonnie Mckee, por exemplo, usou quase à risca para a merdavilhosa “Bombastic”:

HUAHUAHUAHUAHUAHUAHUA

Enfim, todo o conjunto do mini de “Ice Cream Cake” é, pra mim, o debut moral das cinco indigestões de lilith. Elas ficariam ainda melhores nesse mesmo ano e as ideias mostradas nele seriam melhor exploradas conforme a década fosse passando, mas a fundação toda está lá. A partir dele, o Red Velvet se tornou um dos grupos de K-Pop mais icônicos de todos os tempos.

E o mini ainda traz “Somethin Kinda Crazy” como hidden gem, que é uma gracinha. E “Stupid Cupid”, que me parece uma filha perdida do Girls’ Generation. Írra!

13 comentários em “Time Machine: quando os lados “velvet” e “red” se separaram em “Automatic” e “Ice Cream Cake” (2015)

  1. “Se me recordo corretamente do dia, acho que adquiri legalmente pela manhã o EP no site de vendas K2NBLOG” ahahahah e o site ainda tá vivo? Depois do Youtube Premium, não comprei mais nada por lá?

    Imagino o estrondo que seria se ICC fosse o debut (Meio que é o debut OT5), mas até que Happiness faz a sua história

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    1. Não sei se o site ainda tá no ar não. Eu parei de usar ele para minha compras mensais há um tempo, pois tinham mudado umas coisas, desviava muito de páginas pra chegar no link certo pra baixar. O ilkpop tá mais prático. =P

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  2. Gosto de Ice Cream Cake e o Valley-girl concept que a SM fez com elas, mas gosto ainda mais de Automatic por ser uma faixa envolvente e ainda ter um MV bem com cara de MTV noventista (alôr, ASIANMIXTAPE!). Sério, as cenas delas dançando e sendo sassy em frente ao carro imitando Brigitte Bardot (inclusive nos penteados) são maravilhosas. Olha só como a empresa soube aproveitar bem o Blondor das meninas: o lado red representou as Cali girls e o lado velvet fez uma homenagem ao cinema francês em toda a sua obscuridade e sensualidade.

    Quanto à Bonniezão McKee, não conhecia essa faixa dela, gostei da tosqueira, haha! Mas já sabia que ela curtia um retrô. Minha faixa favorita dela (e até hoje o “maior” hit da fofa) é American Girl, que só não foi cantado pela Carly Rae Jepsen por ela ser canadense, apesar de ser a cara dela:

    Inclusive, acredito que a Bonnie seja muito mais conhecida como compositora, já que ela compôs pra vários artistas pop, e alguns desses trabalhos até foram pro j-pop e k-pop, vide:

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  3. Automatic é a title track mais injustiçada do RV, ponto. Na verdade, acho que a filmografia do clipe é uma das mais espetaculares que já vi, entra fácil no meu top 10 MVs: o uso de cores, jogos de sombra, os figurinos (como uma boa interessada em moda, acho que a influência dos anos 1960 não foi por acaso, porque foi basicamente a “década dos cultos”: o que entra na narrativa do clipe e da “mitologia” do RV, presente também em Peek-a-boo, de que elas são um culto e blablablá).

    Não gosto muito de ICC, porém. Eu tenho muita agonia de aegyo.

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  4. Até hoje tenho dificuldade pra diferenciar os lados red e velvet… sei que na teoria, o lado red seria o mais pop e animado, e o lado velvet seria o lado mais R&B cheio de midtempos, mas na prática eu escuto as músicas de um lado e do outro e essa divisão fica bem confusa. Diferente, por exemplo, das duas personas da Tomoko Kawase (essas sim soando BEM distintas uma da outra), ou até dos dois discos do álbum duplo da Christina Aguilera (mesmo ambos sendo retrô, mas de formas perceptivelmente diferentes).

    Mas o que importa é que elas têm músicas ótimas; Ice Cream Cake, pra mim, é até hoje uma das melhores que já ouvi no meio de k-pop!

    Ah, a propósito, falando de k-pop, ELAS estão voltando:

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      1. Isso é cruel… “Star” foi um single bem bacana (mesmo sendo mais um mimo pros fãs que um comeback propriamente dito).

        E dessa vez não teremos o Lee Sooman produzindo, o que diminui os riscos de mais um girlcrush malfeito. Embora ainda sejam grandes as chances de vir mais um girlcrush malfeito justamente por ser isso que os kpoppers querem hoje em dia… mas o single chamar “Paint The Town” ainda me dá um restinho de esperança de um Arco-íris da Xuxa concept vir aí:

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  5. Duas grandes eras do grupo e que me fez entrar de vez e assumir acompanhar elas ❤
    Ice Cream Cake na primeira ouvida me pegou de jeito pelo ritmo e os lalalalala ❤ a coreografia é maravilhosa e o conceito loiras aesthetic ferveu demais. Me lembro que a logo era meu antigo papel de parede do notebook.
    Automatic era tão lindo também, achei bonito tudo.
    Na minha opinião, acertaram duplamente tantos nos mvs como músicas. E nossa, parece que foi quase um dia desse…me lembro que escutei no meu aniversário_ no final da festa eu resolvi colocar as músicas que gostava e isso se tornou tão marcante pra mim, uma sensação boa de nostalgia_

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