Time Machine: quando o BTS, enfim, estourou em “I Need U” e “Run” (2015)

O BTS hoje em dia é o act coreano mais famoso do mundo, mas a história não foi sempre essa. Vindos de uma gravadora pequena no cenário do K-Pop, Suga, Rap Monster e os demais tinham um desempenho bem morno nos charts em seus dois primeiros anos pós-debut. Há uma parcela de fãs que prefere omitir as vendas fracas e os peaks ruins entre 2013 e 2014, talvez em busca de um messianismo maluco incompreensível. Há outra parcela, aí mais coerente, que comenta com orgulho esses primeiros percalços, de modo a destacar eles como azarões da indústria, que conseguiram se sobressair mesmo não vindo de uma Big3.

De minha parte, acho que a melhor coisa que temos a dizer do breakthrough do BTS é… a música dele mesmo. I Need U ainda é um dos melhores troços desovados pelo grupo em todos os tempos, sendo um caso (raro) de o público geral começar a abraçar um act quando ele vem com o seu melhor (e não com o pior).

Acho que é necessário um pouco de contexto para explicar a ascensão do BTS na Coreia aqui (e ao redor do mundo um pouco depois). O BTS debutou em 2013 com a promessa de serem um grupo mais voltado ao hip hop, tanto na sonoridade quanto na imagem. E meio que foi assim durante seus primeiros dois anos de atividade, mas as vendas não eram lá essas coisas. O maior peak deles havia sido com Boy In Luv (não confundir com aquela com a Halsey), que pegou #45 na Gaon, mas em geral eles mal alcançavam o top 100 semanal.

Em 2015 houve então uma primeira reformulação na estética do grupo, iniciada com “I Need U”. Musicalmente, eles agora apostavam numa vertente mais etérea, tendo os sintetizadores eletrônicos como um maior destaque e seus vocais colocados dum jeito mais “sentimental” (ou meloso, entendam como preferirem). Na imagem, deixaram um tiquinho de lado as poses de meninos maus e foram pruma vibe mais soturna, como se fossem adolescentes que entram numa fase sombria e melancólica da vida.

Sobre “I Need U” como música, eu genuinamente gosto muito disso aqui. Acho a soma dos elementos todos que eu descrevi acima muito bem feita, sendo um bom caso onde nada está fora do lugar numa faixa de boygroup. O refrão é muito legal, a explosão de sintetizadores após ele é uma delicinha, a bridge sentimental-dor-de-corno é certeira. Pra mim, é um grande hit.

Paralelo a isso, do outro lado do mundo, um outro ex-bad boy fazia o mesmo com alguns meses de diferença:

O Justin Bieber começou com os trabalhos que levariam a seu novo álbum de estúdio, “Purpose” (que meio que contaminou o planeta inteiro com o tropical house), nessa mesma pegada de “sou um cara que passou da adolescência e agora quero me conectar com meus sentimentos através de músicas mais sentimentais e puxadas pro eletrônico”.

E o BTS e seus produtores tiveram a sorte de antevir o que seria uma nova tendência global meses antes daquele que foi o maior responsável por ela começá-la de verdade. O que foi ótimo para o grupo, que já havia conquistado bons números em casa (mais de 800 mil cópias vendidas na Coreia do Sul, peak de #5 da Gaon e #3 na Oricon) e, pouco a pouco, foi chamando a atenção do público fora da Ásia (mais de 80 mil cópias digitais vendidas nos EUA e peak de #4 no chart global da Billboard).

O sucesso do Justin Bieber com essa sonoridade, creio eu, fez bem ao BTS, já que as pessoas que estavam consumindo o que o Justin fazia eventualmente iriam querer o mesmo de outros artistas. E lá estava o BTS com mais ou menos o mesmo prato, servido ainda com o plus de vir de um act do K-Pop, que já começava a chamar atenção um pouco fora do nicho naquela época. Isso somado ao fato de Dope, comeback seguinte do grupo, mas voltando ao estilo anterior, não ter ido tão bem em comparação com “I Need U”, provavelmente contribuiu para que naquele mesmo ano eles soltassem a que eu considero sua melhor música em todos os tempos, Run, basicamente uma sequência de “I Need U” em sonoridade, temática e estética visual:

“Run” é “I Need U” com esteroides. Todas as coisas que funcionaram nela como faixa são ainda ampliadas aqui. O instrumental etéreo é lindíssimo, o refrão é uma coisa linda, o sentimentalismo impresso pelos integrantes vende muito bem a coisa toda.

E aí vai para o MV, que foi meio que um divisor de águas na indústria do K-Pop: enquanto antes era plenamente aceitável colocar todo e qualquer grupo numa sala só para executar a coreografia, agora são necessárias grandes produções, enredos que construam um lore ao act (o Loona é fruto disso), que vendam uma história, que junte os integrantes em shipps fanfiqueiros lucrativos.

E foi outro sucesso, pegou top 10 na Gaon, top 3 na Oricon, auxiliou para que a segunda parte do disco deles lá vendesse que nem água e estabilizou de vez não só essa nova imagem do BTS (que continuou na ativa e com sucesso em paralelo ao lado hip hop tryhard, que também hitou depois disso), como alçou o grupo ao panteão de acts do K-Pop atual. Não fosse o sucesso de “I Need U” e “Run”, duvido que o BTS fosse a potência fonográfica atual no mundo inteiro. E particularmente, não acho que eles conseguiram se superar depois disso.

2 comentários em “Time Machine: quando o BTS, enfim, estourou em “I Need U” e “Run” (2015)

  1. E para mim essa música é uma das melhores deles. I Need U foi a última música que ouvi em primeira mão, assisti um music show e coreografia. Sempre achei icônico aquela roupinha de marinheiro que eles usaram em uma apresentação.
    Run é boazinha, mas ouvi tantas vezes_ passava nas lojas direto quando fazia curso de informática no centro da cidade, acho que uma menina que trabalhava naquelas lojas de eletrônicos adorava eles_ que meio que enjoei.
    Nessa música achei impressionante como tudo ficou bem amarrado.
    PS. Só lembro da época do barraco que rolou do fandom do Big Bang que voltava perto dess época aí das army. E foi ironico como naquela época as insuportáveis foram do lado BB e não do BTS, que coisa.

    Curtido por 1 pessoa

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