Time machine: a vez que tirei 10 num trabalho falando de “Vibrato”, do Stellar (2015)

Essa é, provavelmente, a história mais aleatória envolvendo K-Pop na minha vida em off, pois junta o gênero com minha faculdade de jornalismo, uma matéria de linguagem e semiótica e uma imensa cara à tapa da minha parte para conseguir uma nota alta.

Em 2015, o Stellar era um grupo ligeiramente conhecido dentro do nicho capopeiro, mas por motivos errados. Um ano antes, o grupo havia lançado “Marionette” e, como o disse o Dougie lá no post dele, redefinido o que era o sexy concept pra Coreia do Sul. Isso pois o videoclipe foi tão transgressor que meio que serviu de parâmetro para gravadoras com mais dinheiro tabelarem um “ok, podemos ir até aqui com a sensualidade das integrantes, mas não tanto quanto em Marionette” para seus acts femininos dali em diante.

Nesse mesmo ano de 2015, as quatro meio que tentaram limpar suas imagens com Fool, um número R&B retrô adocicado onde elas se mostram arrependidas num MV fofinho que tenta vendê-las como garotas normais por trás de todo o backlash sofrido online (ao mesmo tempo que coloca elas de roupas íntimas num datashow de roupas em dado momento, risos). Mas vocês, leitores, provavelmente não se lembram disso, pois “Fool” é uma merda de música. E não adianta ter conceito e mensagem sem um produto realmente bacana de consumir por trás.

Esse deve ter sido o pensamento da Pascal Entertainment ao ver o retumbante fracasso do lançamento nos charts e a total ausência de comentários a respeito dele num geral. Então, meses depois, eles retomaram essa ideia de traçar uma narrativa metalinguística com o quarteto aproveitando o ódio que elas levantaram com “Marionette”. Dessa vez, no entanto, empurrando ainda mais os limites no videoclipe e, de quebra, servindo uma faixa realmente ESPETACULAR junto disso. E aí nasceu Vibrato.

Em minha opinião, a imagem promocional mais transgressora da história do K-Pop…

Na letra, escrita pelo MonoTree, elas fazem uma metáfora sobre serem algo que as pessoas desejam muito (uma flor lá que nasce no gelo), mas que não podem pegar (pois teriam as mãos congeladas). E isso pode ser lido como uma crítica do grupo ao público, que tanto atacou elas, mas ainda assim consumiram “Marionette” por baixo dos panos à exaustão, sem admitir que gostaram de verdade, sacam?

Mas conforme os versos passam e mais elementos líricos são usados, a música também pode ser entendida como um coming of age, um desabrochar para o amor, pra vida adulta, pro sexo, pois a tal flor comentada começa a se aquecer sozinha, derreter o gelo que envolvia ela e agir como nunca imaginaria agir antes. E adicionem linhas de duplos sentidos envolvendo lábios e portas abertas e, bom, temos uma das músicas mais eróticas da história do K-Pop.

Top 30 Stellar Vibrato Mv GIFs | Find the best GIF on Gfycat

HUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUA

Essa narrativa sapeca e crítica é ampliada no MV (feito pelo DigiPedi). Ele brinca com a metalinguagem de colocar elas com um dos figurinos do clipe de “Marionette”, espalhando a narrativa em takes delas assustadas em caixas enquanto são super expostas, com uma Barbie sendo banhada em sangue na TV e coisas desse tipo. E dá-lhe mais sensualidade com a coreografia e, ao fim, aquela sequencia de composições que parecem vaginas na bridge.

Eu considero isso aqui uma obra de arte. Tanto pelo vídeo, quanto pela música (um funkzão explosivo que me soa como uma Figaro tunada). Mas a raiva despertada por parte do público foi ainda maior. Tanto que, como vocês viram naquele programa Miss Baek, isso arrastou a reputação das integrantes para a vala dali em diante. Falo disso com uma opinião cancelável mais pro fim do post, pois ainda tenho que chegar no tal trabalho que me rendeu um 10. Aqui um dance pratice delas zoando o white aegyo para servir de transição:

Durante o tempo que eu cursei jornalismo, minha faculdade juntava num grande bloco de “comunicação” uma porção de cursos. Então, era bem comum que tivéssemos matérias junto de turmas de publicidade, fotografia, design e etc. Uma dessas matérias conjuntas, em 2016, cujo nome eu não faço mais ideia, falava sobre linguagem e semiótica. Basicamente, ela tratava sobre a gente interpretar que tipo de mensagens poderiam ser passadas através das coisas (comerciais, músicas, filmes, séries de tv, livros, quadrinhos e a lista segue imensa), levando em conta os signos estéticos utilizados por aqueles que fizeram elas e o contexto social, político e temporal no qual elas estavam inseridas quando foram lançadas.

Parece uma loucura conceitual, mas, aqui entre nós: foi a cadeira mais importante que peguei, pois até hoje me ajuda na carreira de jornalista cinematográfico e musical que pretendo seguir pelo resto da vida. E começou mais ou menos ali, com um trabalho final que tive que fazer aplicando a teoria que foi passada numa análise envolvendo alguma peça à minha escolha. Então, lembrei do bafafá que foi “Vibrato”, de tudo o que eu poderia retirar de sua letra, MV, da história que eu poderia construir a partir disso e escolhi isso como tema. O que me fez escrevê-lo sozinho no fim das contas. Poderia ser em trio ou em dupla também, mas um dos outros dois achava que o vídeo era “pornográfico” e não quis fazer, enquanto o outro achava que K-Pop não era algo “sério” e não deveria ser usado como tema de trabalho no ensino superior – eu discordava tanto disso que, no ano seguinte, fiz meu TCC, justamente, sobre como o K-Pop era um fenômeno cultural que conversava com algumas teorias da Comunicação. Também tirei 10 nesse, mas aí é assunto prum outro post.

Enfim, fiz o trabalho, entreguei e, quando fui buscar a nota, lembro da cara impagável do professor rindo enquanto falava da parte lá por 1:59min onde aparece a bolsa do gif acima e outras coisas. “Que maneira genial de colocar bucetas num videoclipe!“, e é mesmo! Amém, DigiPedi! O 10 veio, a aclamação também e “Vibrato”, que já era uma das minhas músicas prediletas de 2015, acabou ganhando um lugar especial na minha cabeça por isso.

Opinião cancelável da vez…

Contudo, como disse, o vídeo meio que “destruiu” a reputação das integrantes. E não tem maneira delicada (e “não-cancelável” de dizer isso), mas por culpa… da babaquice do público mesmo! Não das integrantes, não da gravadora, não do compositor e nem dos responsáveis pelo clipe.

É meio bizarro que em 2015 (e mesmo agora, em 2021), as pessoas ainda mantenham uma mentalidade tão conservadora a ponto de acharem que sexo é algo errado e que representar sexo como uma estética em videoclipes seja ruim ou degradante. E nem estou falando só do público coreano/asiático esquisito que condena atualmente o sexy concept, mas passou anos comprando a infantilização do aegyo, que, pasmem, também é ERÓTICA PRA CARALHO, como algo socialmente mais aceito (no Japão, então, é só ver o tanto de idols indo pro lolicon que movimentam a economia fonográfica). Falo também da galera dessa parte do globo. É só dar uma olhada no vídeo acima desse canal de musicistas clássicos que reage à clipes e músicas de K-Pop taxando o erotismo assumido do MV como ruim, dizendo que não precisava disso para fazer a música acontecer (sendo que a música só aconteceu mesmo por causa dele, o Stellar veio até ao Brasil pra fazer show depois).

A raiva com o erotismo assumido é presente tanto do lado dos (autointitulados e pretensos) cidadãos médios de bem conservadores da família tradicional, quanto (e agora vocês vão cair da cadeira) de uma boa parcela do lado da galera (autointitulada) progressista, inclusive mais jovem, que entra num loop paradoxal espantoso onde, por mais que tenham discursos prafrentex sobre diferentes temas, acabam perpetuando esse conservadorismo de “a mulher não precisa mostrar a bunda pra vender a música”. Não é a toa que o Twitter tava fervendo esses dias com uns adolescentes dizendo que não deveria ter cena de sexo em filmes, que matérias sobre jovens preferindo redes sociais a relacionamentos amorosos tem sido cada vez mais produzidas. É… conservadorismo, mesmo duma galera que diz estar no espectro politico social oposto a isso.

É óbvio que mulheres não precisam sensualizar para vender música. Mas elas podem, caso queiram. E quanto isso é bem feito, na mão de bons produtores e diretores, grandes obras nascem:

O Stellar não deveria ter sido arrastado para a lama e, agora, ter vergonha de seu legado, mas não porque esse tipo de música e MV não deveria ser feito, sim porque o público deveria parar de palhaçada e entender arte como arte. Sensualizar dentro da arte (e fora dela) não deveria mais ser visto como algo negativo, o mundo já deveria ter andado pra frente.

É uma pena que o irmão de uma das integrantes, a Gayoung, que agora é um jogador famoso de baseball, tenha a trajetória da irmã como uma “vergonha” quando linkam eles em matérias esportivas, mas o problema não é que ela não deveria ter lançado “Marionette”, “Vibrato”, etc., sim a sociedade ser babaca mesmo.

E o aegyo não é “uma resposta feminista à erotização de idols” (frase insalubre que ficou famosa na época do outro blog), o aegyo É uma erotização.

Puxa, que hino essa música, não? :V

Edit¹: Como falaram nos comentários, realmente há nisso tudo a complicação do histórico do Stellar com a empresa delas. Segundo o que algumas integrantes chegaram a comentar depois do disband, havia uma forçação de barra pro parte da parte da staff para que elas fizessem esses sexy concepts. Em minha opinião, a gravadora realmente errou nisso (como todas as gravadoras que forçam conceitos que os grupos e artistas, no fundo, não querem executar erram, embora isso seja algo inerente da indústria idol). Contudo, isso acaba sendo a ponta do iceberg de um grande problema. É bem provável que, caso não existisse essa mentalidade do público contra a sensualidade como um conceito estético, elas não tivessem sofrido o backlash bizarro que sofreram, então talvez não veriam hoje em dia esse período como ruim, pois fazer o sexy concept não seria algo visto como condenável e não traria as represálias que ainda perseguem elas. No fundo, o problema é a mentalidade social conservadora por parte do público de K-Pop, lá no oriente e aqui no ocidente.

9 comentários em “Time machine: a vez que tirei 10 num trabalho falando de “Vibrato”, do Stellar (2015)

  1. Tudo que você falou fica ainda mais revoltante se pensar que a Madonna lançou tudo isso lá no começo dos anos 90, levou um puta backslash e 30 anos depois estamos no mesmo ponto (senão pior, já que ela deu a volta por cima várias vezes)

    E é uma discussão tão complexa porque a gravadora não leva em consideração a vontade das integrantes e não são os executivos que levam o hate e sim quem talvez não tenha tido a opção.

    E do lado de cá essa moda adolescente está ridícula, me lembra muito aquele “alerta de gatilho” nos posts e alguns jovens ficam irritados DE VERDADE porque certos tweets disparam gatilhos neles. É responsabilidade deles silenciar as palavras ou os assuntos que são prejudiciais, assim como responsabilidade deles não consumir filmes com cenas de sexo ou romance se isso faz mal (exceto filmes pornô, morte à indústria pornográfica). É conservadorismo e egoísmo.

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  2. Incrível o post, sério (que bom q vc decidiu postar)… Quanto a parte “cancelável”, acho que você está certo e concordo… Existe uma onda conservadora real acontecendo entre os jovens de twitter e isto dá muito receio de como o futuro será…

    O grande problema com Vibratto pra mim é como as integrantes entraram nessa… Teve muito abuso de poder envolvido e aproveitamento de situações (como a foto do single), assim como tem em vários nugus e atos famosões em tudo quanto é cenário fonográfico… (mas a situação parece mais escrachado, não sei… Talvez porque seja a que eu sei mais sobre..)

    Eu, sinceramente, não sei o que é pior, o pessoal que critica a erotização do aegyo e fica só no sexy, ou o pessoal que fala do aegyo como reposta feminista e tudo mais… Ambos os contextos podem ser utilizados tanto de uma forma construtiva quanto destrutiva. No fim, a impressão que dá é que tem muita gente aí que fala, fala, fala como se fosse a referência no assunto, mas não dá nem um google pra entender as nuances do negócio…

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  3. Acho que essa geração quer tanto problematizar tudo que acaba dando a volta na ferradura e chegando do outro lado do espectro. Obviamente não existe problema em problematizar (Deus me livre alguém aqui me confundir com um minion contra o politicamente correto kk), mas o caso é que muitos jovens fazem isso não porque realmente se importam com o assunto, mas pra ganhar pontos no grupinho, sem ter nenhuma base teórica ou algum conhecimento real além de threads do twitter. Aí toda obra erótica vira exploração, toda troca de culturas vira apropriação, e assim vai.

    Sobre o Stellar, obviamente as críticas do povo deveriam todas ser feitas a empresa, e não a elas. E não por serem obras sensuais, e sim por terem sido feitas sem a concordância expressa delas.

    E fiquei surpresa de um colega seu achar o MV pornográfico, porque no Brasil (e ocidente como um todo) isso é praticamente filme da sessão da tarde 😛 mas parabéns pelo 10!

    PS: inserir aquele gif da Cristina de alma gêmea gritando QUE HINOOOO

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  4. Eu sempre sinto pena da alma que quando vê o vídeo de vibratto ao invés de ficar maravilhado e hipnotizado sente raiva e choque pela imagens meramente evocativas( pra mim a sacada genial do stellar em geral é que tudo fica a cargo da sua cabeça entender aquilo ,claro que existe uma sugestão por parte das pessoas que estão produzindo o vídeo,mas é vc que ver aquilo,uma criança provavelmente não vai entender oq tem de errado ou estranho numa bolsa abrindo,elas brincam demais com a própria malícia dos adultos )

    kkkkkkkkkk é completamente off ,mas eu ri muito quando vi o link do vídeo dos músicos clássicos reagindo ao stellar pq eu sinto que eles nunca escutaram nada além de música clássica e o pop mais génerico quando dão uma volta pelo shopping,eles se chocam com absolutamente tudo e disgostam de tudo que consideram mais fora da caixa

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  5. Os anos passam e passam e a sexualidade continua sendo um tabu para a grande maioria, mesmo sendo algo perfeitamente natural. Lembra aquela história da Geisy Arruda que quase foi agredida por usar um vestido curto na faculdade e gerou uma comoção nacional (inclusive de veículos de mídia a criticando por estar vestida de maneira “inadequada”) – e o que é mais engraçado é que o vestido hoje é até comportado para os padrões que vejo nessas baladinhas heterotop sertanejo quando passo na porta dos bares e casas noturnas da minha cidade.

    Acho que existe uma distorção dicotômica muito grande do pessoal mais jovem quanto a essas questões, porque para eles não existe nuance, não existe meio termo, não existe análise aprofundada, é sempre oito ou oitenta, nós ou eles. É uma geração de um puritanismo absurdo que falta infartar quando uma mulher usa imagens sugestivas (mesmo que nem tenha nudez ou nada explícito!) em um MV, como se fosse o fim do mundo falar sobre sexo… Mas que ao mesmo tempo não vê nada de errado e adora glorificar vender nude via OnlyFans – inclusive o que mais vejo é adolescente no twitter falando que “assim que fizer 18 anos vai abrir um OnlyFans”, oi???????

    A verdade é que enquanto mulheres, o “empoderamento” só existe quando é conveniente para as outras pessoas: seja quando “vendemos” nossos corpos e nossa imagem por coerção para satisfazer os desejos alheios, seja quando temos que nos passar por virgens infantilizadas e puras para conseguir respeito frente aos olhos da maioria. A “liberdade” é sempre de dizer sim para o que querem de nós, nunca para podermos dizer não.

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  6. Outro caso também (que aconteceu em 2015) foi Joker do dal shabet que recebeu um blacklash bizarro pois o povo achou que elas tavam catando sobre uma piroca grande, mas assim como o stellar tudo foi de maneira subjetiva, tanto que a palavra Joker só era cantando em ingles e não em coreano o que daria está tradução pornografrica

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  7. Que post! E parabéns por sua nota alta.
    Me recordo que na época fiquei chocada quando assisti esse mv, e quase cai na cegueira do puritanismo hipócrita de alguns, mas escapei porque achei a linguagem genial depois de assistir um tempo e perceber as referências.
    A única coisa que me deixa triste é o hate que as meninas sofreram na época. E saber que não foi de suas vontades. Mas, a música é uma das melhores do kpop e envelheceu bem demais! Inclusive, boa parte das músicas das meninas.

    E claro, dizer aqui que foi uma das coisas que me fez perceber sobre o machismo pois tenho certeza que se fosse feito por um grupo masculino não teria metade dos hates.

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