A história de “I Will Survive”, música da Gloria Gaynor que o IVE sampleou em “After LIKE”

Uma pausa nos afazeres da faculdade para falarmos de LGBTQ+ culture 101.

Aparentemente, o IVE decidiu que, além de ter uma das melhores e mais bem sucedidas músicas desse ano até então, irá (ler com a voz da Narcisa) tocar uma música pros gays em seu próximo comeback. Isso porque elas meteram um sample de “I Will Survive”, da Gloria Gaynor, em “After LIKE”, que será lançada amanhã (22).

O hype está altíssimo e elas já conseguiram chamar bastante atenção dentro da comunidade do K-Pop e também vi alguns conhecidos meus, que não são capopeiros, mas são do vale, comentando isso aqui. O teaser já passa de dois milhões e meio de views. E se vocês forem em vídeos de “I Will Survive” no YouTube, vários dos comentários mais no alto são antecipando o que virá aqui.

Mas por que “I Will Survive” se tornou um dos maiores hinos do universo LGBTQ+? Bom, há uma história por trás disso. Vamos a ela. Mas antes, ouçam a icônica versão original:

I Will Survive é uma música da grande cantora Gloria Gaynor, lançada no ano de 1978. Curiosamente, ela é uma… b-side. E não no sentido de b-side que vocês atribuem hoje em dia erroneamente para album track, sim b-side de ela ter lançado um compacto para o single Substitute no lado A, e adicionando “I Will Survive” no lado B como material extra.

Inicialmente, “I Will Survive” não era (diretamente, mas já chego nisso) para ser um “hino gay”. A faixa foi escrita pelos compositores Freddie Perren e Dino Fekaris. E a intensão por trás da letra, aparentemente, era um desabafo do Dino Fekaris a respeito de dificuldades que ele passava na gravadora Motown, que o havia demitido. Então, ele bolou uma mensagem com se esse fosse um término de relação, mas que ele ia sobreviver e continuar sua vida dali em diante.

Ao dar essa música para a Gloria Gaynor, ela assumiu outras camadas, descrevendo na interpretação dela alguns problemas que a própria cantora passava à época.

Digo que essa não era diretamente uma música focada para o público LGBTQ+, mas indiretamente não tinha como não ser. Pois a Gloria Gaynor era uma diva da cena disco. E a cena disco é… uma cena LGBTQ+. Não só LGBTQ+, mas negra e latina.

Pra quem não sabe, os clubes de disco music nos anos 70 eram uma versão ainda mais transgressora da contracultura que o rock. Porque o rock acabou se “embranquecendo” e ficando “macho demais” em seus ídolos e público com o passar do tempo.

Não achei o vídeo no YouTube, mas há um episódio na temporada do ano passado de Rupaul’s Drag Race em que o RuPaul explica o quão assustados ficavam os conservadores ao ver que, na disco music, as pessoas colocavam seus problemas para fora rebolando.

Como resposta à transgressão da disco music, uns roqueiros branquelos héteros iniciaram o movimento “Disco Sucks”, que atacava grandes nomes da disco à época, pedia boicote nas rádios e TVs, culminando num evento onde pessoas levavam compactos de disco até um local para queimá-los em protesto.

Ironicamente, as pessoas não levavam só LPs de disco, mas quaisquer LPs de quaisquer gêneros feitos por artistas negros. Um momento bizarro da história que vocês podem saber um pouco mais assistindo a esse documentário sobre a carreira dos Bee Gees, que ACHO que está na HBO Max:

Posto isso, não haveria como desassociar, de qualquer maneira, “I Will Survive” da comunidade LGBTQ+, pois era disco e disco era LGBTQ+. E com a chegada dos anos 80 e o aumento dos casos de contaminação da HIV principalmente entre homens gays, num momento onde o tratamento ainda era bem precário e as perspectivas de cura bem negativas, calhou de “I Will Survive” ser “tardiamente” descoberta e abraçada por essa comunidade.

Pois a mensagem era forte, associável ao momento e a música, em suas batidas disco que funcionavam para as pistas de dança, eram transgressoramente agridoces. Já disse isso em outras oportunidades e repito aqui: pra mim, a maneira mais eficaz de atingir a catarse e me livrar dos meus demônios interiores é através de músicas dançantes. Pensando rapidamente em três que eu já tenha mencionado como músicas catárticas aqui no blog nos últimos anos, lembro dessa, dessa e dessa, todas dançantes.

Outras versões de “I Will Survive”

A versão da Gloria Gaynor é a mais icônica por motivos óbvios, mas acho que a minha “I Will Survive” predileta é a desse canal chamado Scary Pockets, que faz arranjos funks setentistas para outras músicas. Tem alguma coisa no pacote todo que vai me absorvendo e, no final, já estou em êxtase pelo que colocaram.

Meu lado roqueirinho adolescente sempre amará essa aqui do Cake. Eles deram uma interpretação bem mais pessimista, como se tivessem ironizando a situação toda e, na real, não fossem sobreviver ao término do relacionamento. É incrível.

Durante o surto coletivo que foi a passagem da Xuxa pela Record, ela teve esse programa bem legal onde pessoas cantavam e uma parede de jurados avaliava e cantava com os calouros. Vez ou outra aparece esse vídeo com essa mina cantando “I Will Survive” pra mim nos indicados do YouTube e sempre vale a pena assistir.

E provavelmente a versão que a maioria de vocês tiveram o primeiro contato com “I Will Survive”. Saudade das Pussycat Dolls.

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9 comentários em “A história de “I Will Survive”, música da Gloria Gaynor que o IVE sampleou em “After LIKE”

  1. Meu gosto musical foi construído através das minhas parentes. Com a minha prima, aprendi a gostar de indie, com a minha tia foi pop chicletinho, com a minha mãe foi synthpop e tenho orgulho de dizer que aprendi a gostar de disco sozinhe. Já sabia que os “misfits” da sociedade naquela época se agarraram ao estilo, mas amei descobrir mais fatos por aqui. E que o hino yag libertador do IVE venha

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